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» » Jandira Zanchi: 3 Faces e outras poesias

3 FACES

estar viva pode ser uma sinfonia
- o baixo um pouco afônico –
já que os cenários para os quais me transporto
são tão profundos que evoco senis desejos
entre os vãos desses murmúrios

vir à tona é tão intolerante quanto o sufrágio naufrágio
no rio – corrente de névoas – arquétipo branco
armado ao léu, lince ao luar recortado no breu
uma brecha flecha de nona hora (algum instante
do branco andor) perfume desafogo de mim

como uma odalisca vesga sem destino
- em torno de um átomo de calor -
ofereço 3 faces e uma nódoa de pão.

Jandira Zanchi




CELLO

é infinitesimal o segundo do décimo de tempo
em que me rendo à paisagem tardia desses olhos fixos
auréolas escuras de vigésimo de instantes
- antítese no som de cello de Bach e adjacências -

nem todas as reminiscências são castanhas em dó ou Sol
antes, enviesadas, cortam um céu de vadios
e vacilantes arquejos sonados
                    das suítes ressonadas
pautas embriagadas de fé e fúria
- antes do amor é a fuga -
a esperança única de horizonte inteiro e virgem

adormecida nos cristais perfumados da vigília oriente.

Jandira Zanchi




MAREMOTO

apontada à nascente com suas luzes/cruzes,
esferas de um cristal múltiplo e dormente
conduzem a uma navegação, rio acima,
entre silêncios e maresias – maremoto a bordo –
enfim, crespos e afáveis, os adornos do sol
estarão na lua loura
....miraculosamente a vida conhece seu fio.

Poemas de “Área de Corte”, lançamento em breve pela Editora Patuá.




Fotografia de Isabel Furini

ANDARILHA

estimo-me quase santa e sabedora embora que esqueci
uns cem mil réis de vespertinas vitórias e alecrins

alegro-me com a vivenda enquanto é vasto/limitado
o decorrer do dia diamante nessa terra lisa de lisuras

quase esqueço, nos muitos tropeços,
a necessidade andarilha da vida – quando abre um
horizonte, novamente, a quadrilha e sua sina se levantam
e satisfazem com pares, mercadores e ímpares,
as  vésperas dos vestíbulos acionados nesse mercado
 – mortificado - vai ancorando-se de multiplicidade
e vagarosidade em cada dia encolhido e luminoso....

são tantos os céus e os infinitos e os cristais e os crédulos e
os crucificados e os mortificados
                                          terra aleatória em mares navegados

crepúsculo dos lares e laços

na fronteira, arvoredo de aço e alhures,
abre suas flores.

Jandira Zanchi





Jandira Zanchi é poeta e ficcionista. Tem lançamento para breve de Área de Corte pela Editora Pátua. Publicou os livros de poesia Gume de Gueixa (2013), Balão de Ensaio (2007) e o livro virtual A Janela dos Ventos (2012). Integra o conselho editorial de mallarmargens revista de literatura e arte contemporânea.

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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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