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» » Ellen Maria Vasconcellos: O Reverso das Pedras e outras poesias

A resistência do impossível
não altera a ordem
dos cacos
a quantidade de lados
também é a mesma
a profundidade do corte
um ângulo parece que grita
enquanto
outro se cala
não há mais nada lá
um jarro completo
cheio de eco, um oco
o vazio de dentro
se espalha agora
pela
casa inteira.

Ellen Maria Vasconcellos


Fotografiad e Isabel Furini


O reverso das pedras
me insistem na terapia
na regressão ou hipnose
- pra você descobrir o que foi que causou isso
isso chamam aquilo
que não dizem
histeria
(ou a desconfiança que nutro por todos os homens)
me culpam
& meus pais & minha infância &
todos os homens
me dizem isso
desconfiam que eu já sei a resposta
e insistem
- mas o que foi que causou isso
(reticências e não interrogação)
percebo que eles têm medo
da resposta
será que têm medo que eu aponte o dedo
para o pau deles
e cruzam as pernas
em um movimento inconsciente.

penso em alguns cães que atacam
porque sentem o cheiro do medo
e também cruzo as pernas
mas eu sei
que eles já perceberam
tudo
desconversamos
temos uma lista pronta de amenidades
falamos de prêmios literários e autoexílios
o inseto como alimento e a tecnologia do gps
caímos em poços escuros
por sorte
acendo um cigarro
com minha caixa de fósforos
são lugares comuns que sempre voltamos
porque não temos mais
nada
(seguro? em comum?)
em volta.

O que é o desejo
se incha o algodão de sangue antes do sangue
antes de cair
uma só gota se incha o algodão
de sangue.

Ellen Maria Vasconcellos


astronauta

o luto
daquilo que matei
não é mais brando
e do mesmo amargo
é o café

ou com açúcar.

há coisas e gestos
pessoas e corpos

tempos de foguetes
em que tudo se despedaça
menos o que se despede
este permanece
para sempre

no espaço.

Ellen Maria Vasconcellos


Fotografia de Isabel Furini


desconcertos
talvez soubesse que havia perdido a minha vez, a minha senha, hipnotizada pelo monitor. falava alguma coisa sobre tentativa de homicídio, uma apresentadora de tv falando de outra apresentadora de tv. tv só fala de si mesmo e tudo cabe dentro dela. um hotel de luxo, um homem morreu, e eu esperando as cópias autenticadas, minha senha com três dígitos no monitor. pensei naquela vez que te levei até o aeroporto e seus olhos brilhavam diante de um café. não foi o último que tomamos juntos, mas foi o mais dolorido. e o mais bonito também. pensei naquela vez que você me buscou no aeroporto com meu pai e eu fiquei com cara de merda, agora vou ter que ficar com você, e eu mal sabia o que é mesmo que eu queria, tinha beijado outro cara na noite passada. pensei também em outra despedida, todo mundo saiu do quarto e a gente ficou lá sozinho querendo se beijar, mas com vergonha, e daí não deu outra: a gente se levantou e foi embora. com raiva deles, com raiva da gente. uma semana depois, a gente ficou e estragou o imprevisível. pensei também naqueles dez segundos antes de eu passar por outra porta de aeroporto, você me levou até lá com o carro da outra, e eu toda contente com o amor eterno até carimbar o passaporte e me sentir aliviada que estava voltando pra casa. pensei também no cachorro quente do posto de gasolina que você comeu e vomitou quando eu terminei o namoro que, na verdade, já tinha terminado na porta do cemitério. espera, que tem mais. pensei também no dia que você me deixou na porta da casa do meu pai e disse que ia me ligar no dia seguinte, mas eu sabia que não ia. você vai se casar com outra, e tá tudo bem, eu não quero me casar com você. só sentimos falta um do outro. o moço do meu lado me avisou que era meu número que estavam chamando. as cópias já estavam prontas. ainda deu tempo de pensar em mim mesma de olhos fechados e cabeça no vidro do ônibus, indo embora da sua casa para o terminal de trem, pela última vez. tem tantas mortes na tv e também numa vida só.
Ellen Maria Vasconcellos




Ellen Maria Vasconcellos é autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado em edição bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá. É tradutora do livro Ângulo de guinada, do autor estadunidense Bem Lerner, lançado em ebook pela e-galáxia. Tem textos próprios e traduções de poetas de toda América publicados em diversas antologias e revistas impressas e digitais no Brasil, Chile, México e Espanha. É colaboradora da “Malha Fina Cartonera” e da página do facebook “Nova poesia norte-americana”. Escreve também assiduamente em seu blog: http://ritepramim.blogspot.com. 
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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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