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» » » Marco Aurélio Cremasco: Outono de nossas vidas

Visitei, em 1998, o National Gallery of Art, em Washington, capital dos EUA. Conheci, na ocasião, o conjunto de quadros A viagem da vida, de Thomas Cole (1801-1848). Trata-se de quatro pinturas sobre as fases da vida de uma pessoa: Infância, Juventude, Maturidade e Velhice. Nesses quadros, além do paisagismo identificado à Escola do Rio Hudson, estão presentes um ser humano, um barco e um rio.

Thomas Cole- The Voyage of Life Childhood, 1842 (Nacional Gallery of Art), Washington, D.C. USA.
Domínio Público – Wikipépia.

No quadro relativo à Infância, a pessoa é retratada em uma criança, pronta para ficar em pé pela primeira vez em sua vida. No quadro da Juventude, a criança torna-se um jovem imberbe, de cabelos escuros, coberto por uma túnica vermelha, talvez para nos lembrar que somos efêmeros. Na Maturidade, tem-se um homem de barba preta, atormentado. Na Velhice, o homem traz barba e cabelos brancos, face enrugada e serena. O rio é a metáfora para a vida que, na Infância, aflora de uma fonte, oriunda de uma gruta qual o ventre de mãe, para depois alagar-se na Juventude e seguir o seu rumo, até que, na Maturidade, as águas ficam turbulentas à beira de um precipício. Na Velhice, o rio acalma-se no colo de um lago. Se o ser humano é a representação do corpo ao longo do tempo, o barco é a sua alma que flui pela vida. Existe, também, um anjo retratado em todos os quadros. No da Infância, ele está atrás da criança, dentro do barco e de posse do leme, dando-lhe direção. No quadro da Juventude, o anjo permanece atrás do jovem, todavia fora do barco e na margem do rio, apontando o caminho a ser seguido. No quadro da Maturidade, enquanto o homem ajoelha-se de mãos postas, implorando perdão ou, quem sabe, salvação, o anjo não só permanece atrás, como está distante do barco, em uma nuvem, desprovido de ação, deixando o homem à deriva em sua solidão. Na Velhice, este anjo é representado na frente da pessoa, com uma das mãos próxima à face do ser humano e a outra apontando um raio de Sol, que explode das nuvens, nas quais se percebe outro anjo, qual comitiva para recebê-lo. Ao debruçar-me sobre as obras de Cole, sou convidado a traçar paralelos com as estações do ano: a Primavera associa-se à Infância, pois simboliza o nascimento, a floração. O Verão poderia relacionar-se à Juventude, devido à explosão do calor e do fulgor. Já o Inverno associa-se, certo modo, à reclusão, à resignação frente à proximidade do fim, entretanto com o conforto da nova Primavera por vir. Não, não me esqueci do Outono, como o anjo, possivelmente, o fez com a Maturidade. O Outono da vida é a Maturidade. É a etapa de reflexão sobre a razão de nossa existência, etapa de balanço sobre o que foi feito e o que, de fato, pode-se realizar. Nesta fase, os convites para velórios são mais frequentes do que batizados. Decepções mais constantes do que descobertas. Ao ver-me no espelho, encontro-me em uma árvore que se despoja de folhas. A calva acentua-se, a barba cada vez mais branca, além de perguntar-me. – O que fiz? O que resta fazer? Debruço-me nos dias da semana e sou remetido a traçar novas analogias e associar o domingo à Primavera, pois representa o começo e, o próximo domingo, o recomeço. O dia de hoje está associado a qual estação do ano? Você, que me lê, está em qual estação? Seja qual for, sinto que o anjo de Cole, representado no quadro da Maturidade, não está tão longe assim do barco daquele homem aflito, pois é no Outono da vida que ele se faz mais presente em nós. Esse anjo é a nossa própria consciência.


Marco Cremasco
Fotografia do Facebook
Marco Aurélio Cremasco é natural de Guaraci, Paraná, e reside em Campinas, SP. Professor Titular na Faculdade de Engenharia Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi um dos fundadores e coeditores da Babel, Revista de Poesia, Tradução e Crítica. É autor de três livros técnicos; do romance Santo Reis da Luz Divina (Record, 2004), do livro de contos Histórias prováveis (Record, 2007), das coletâneas de poemas Vampisales (Editora da UEM, 1984), Viola caipira (Edição do autor, 1995), A criação (Cone Sul, 1997), from Indiana (Edição do autor, 2000) e As coisas de João Flores (Patuá, 2014). Atualmente é membro do Conselho Editorial da Editora da Unicamp e colunista no jornal O Diário do Norte do Paraná, Maringá.

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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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