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» » » Jr. Bellé: Carta ao Uivo

Carta ao Uivo

Queria: A poesia mais bonita.
Para rasgá-la. Diante de ti.
Enquanto confesso que te amo.

Queria: Tua mirada. De calvário.
Elevando-se acima. Da minha.
Queria aquela. Que você sempre repetia.
Antes do sorriso despreocupado.
Que vinha logo. Em seguida.

Queria: que fosse tão fácil.
Quanto querer.
Quando ainda. Te queria.


*

Fotografia de escultura - Kirkland, Estados Unidos, por Isabel Furini


sinto seu cheiro escorrendo
debaixo do trevo das araucárias
sinto que sou sereno e você é geada
e assim que romper a madrugada
e pôr fim ao nosso outono
num segundo secarão as folhas
e nelas, as caligrafias
sobre as mesas dos poetas

mas será você quem será
presente e condensará
num orvalho silencioso enquanto leio
residencia en la tierra 
caballero solo com o baseado aceso entre os mesmos
dedos que durante a noite desnudarão seus seios
e os mais incendiários pecados

serei seu solista de lábios e de beijos
não te quero apenas
mulher
mas compañera
carrega comigo nessa marcha a bandeira negra

te desejo errante e derradeira

trepadeira de estrelas na escuridão baixa
   fugiremos juntos na poeira da estrada
e sós ergueremos nossa fortaleza
na lareira seremos o fogo
da fumaça subindo solitária

e sumindo conosco
sem uma só palavra


Capa do livro de Jr. Bellé

*
é preciso apegar-se à mão de um amigo
a qualquer sinal coletivo de gratidão
a qualquer minúscula evidência empírica de solidariedade
às raras empatias capazes de comungar os homens e as mulheres
é preciso apegar-se às flores e às frutas maduras
e à manga rosa que é as duas

faça outubro ou faça verão

não há outro jeito, compadre
comadre, de algum jeito a insanidade se apossou da razão
e tudo começou quando vendemos o último naco de nossa dignidade
por um prato de arroz e feijão

quem consegue esquecer desse dia?
os olhos abrindo-se fatalmente após uma noite de tormenta fria
ainda assim desejando retornar a ela e matar os sonhos de hipotermia
como esquecer a maré cheia e súbita
ao abrir as duas densas cortinas?
uma de couro e outra de insolência intempestiva
e deixar que a luz inunde as ideias
e da nascente dos olhos verta
a garoa antes seca
de realidades fundas
tão logo trovoem-se os cílios
e do atrito, a fagulha
faz brotar a manhã depois da manhã
numa ressaca de amanhecer
trazendo de volta tanto ontem
trazendo um hoje pra tanto talvez

é preciso acreditar na petulância do adolescente
é preciso acreditar na coragem
do sorriso esperançoso de um velho trabalhador
capaz de vencer as memórias e o cansaço de viver delas
e nelas restar-se um pouco maior
desgarrar-se da brevidade da existência, arrancar-se
das próprias raízes
já abraçadas à morte
para dedicar à vida uma homenagem de quem
caso pudesse
jamais a esqueceria, jamais
a deixaria à míngua
e a ela voltaria
quantas vezes ela quisesse

é preciso creditar o amanhã
aos que ontem acreditaram
é preciso creditar o ontem
aos que acreditaram no amanhã
mas também é preciso creditar a fé
ao presente
mesmo estando ele
mais desacreditado do que a gente



*
qual o tamanho da nossa pequenez?
só sei que giramos juntos e velozes
ao redor de uma bola de fogo
que após o primeiro grande outono
nos arderá

sequer a beleza e a gravidade
do suspiro de esperança e de maldade
que eleva o tempo e toda humanidade
ao colapso impressionante da epistemologia de tudo

resistirá

às palavras raras
em meio ao vácuo mudo

raras

em meio ao vácuo mudo


o erro da vida foi superestimar-nos
macacos territorialistas e hierárquicos

num mundo canino cheiraria seu rabo
lamberia meus bagos
e em matilha iria trotando
com minha maleta de couro de gato
entre os dentes
para mais um dia de trabalho






Jr. Bellé nasceu em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná, paradeiro de suas memórias mais antigas. Migrante por natureza (e por conta dos ossos do capitalismo), morou em Curitiba, Alta Floresta - MT e Ponta Grossa - PR (onde cursou em jornalismo na Universidade Estadual de Ponta Grossa). Desde que chegou a São Paulo, no entanto, fincou raízes, como uma araucária fora de lugar. Publicou três livros de poesia e um livro reportagem.
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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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