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» » Joaquim Manuel Pinto Serra: Poemas de uma solidão anunciada

1
As imagens sobrepõem-se. Inábeis. Incompletas. Um álbum estático e velho
no baú de uma história. Tão vulgar como eternizada nas lembranças já
remotas, presas por um débil fio. Sinapses a desfazerem-se ao evocar a memória.
A avó tinha uma lágrima escondida na cor negra com que ilustrava a saudade.
Dessa lágrima nascia um rio com nomes de algumas estrelas. Todas morando no
seu recolhimento dócil de sobrevoar o destino.
A avó tinha um rio desaguando nas suas veias. Não lhe conhecia o nome.
Nem sabia que existia
A avó tinha um rio desaguando nos seus lábios. Por isso, quando falava, nas
palavras que nos dava, como oferta em dia de anos, ela lembrava duas margens
escondendo todos os náufragos, antes de atingirem o fim.
A avó sabia a rio, antes de se afundar no mar. Onde se refugiava por vezes,
quando o mar, como sereia, lhe cativava os sentidos.

Quadro do artista plástico Davi Faustino

2
Ficam-nas as histórias cansadas de sermos mais velhos do que o tempo.
E sobram-nos as dores solitárias, perdidas no que escrevemos.
Em diários quase póstumos. Ausentes de nós, em parte incerta.
Bipolar é a razão. E o teu afecto. Perdem-se ambos nos lençóis incómodos onde
dormimos.
Temos numa das mãos os traços de uma poesia incompleta. E na outra as arestas de
uma solidão vestida solenemente para nos receber. Em trajes de alguma cerimónia.
Com os adornos cintilantes, comprados de propósito para tão pomposa ocasião.
Enfeitiçados de mistério, temos a loucura de adormecermos antes de festejar
o aniversário da nossa ausência.

3
Descobrimos tarde demais a solução.
Os teus ombros ficam em cruz, nus de palavras. E a intimidade é desfeita, quando
em viagem. Sem passaportes. Sem pátrias e sem raiz. Sem conjugar o amor no
presente do indicativo do verbo amar.
O pretérito imperfeito assume-se como disfarce. Condicionado ao infinitivo de
um outro verbo ainda por nascer.
O futuro imperfeito do indicativo é uma miragem. E o desejo inconsolável de te
perder resta difuso, nesta ânsia de um novo regresso ao passado. Por uma só vez.
Talvez, a última. Suspensos desta ânsia de te lembrar.
Quadro do artista plástico Davi Faustino

4
Recordamos todas as primeiras emoções. E as últimas? Onde se situam?
Para que servem? Como sabemos que são as últimas? Qual a fronteira entre o que vale
a pena recordar e o que é apenas envelhecimento e a anunciada solidão prometida
desde que nos conhecemos?
O último beijo. O jantar de despedida. O último encontro. A última vez.
O teu último silêncio. A última lágrima. O último olhar. O livro derradeiro. O último
som antes da neblina. A maresia a escoar-se quase no fim.
O último desejo. A última viagem. O final de nós. A despedida. O último adeus.
A última sinfonia. O último passeio pelas areias de uma praia por recordar.
A última madrugada, com um poema por escrever na algibeira.


                                                                                                                                                                                                                    

Joaquim Manuel Pinto Serra, médico psiquiatra português, escritor e professor de Geriatria e Gerontopsiquiatria em várias Academias de Seniores de Lisboa (“A arte de envelhecer”).
POESIA: Recebeu Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres,1998;  Menção honrosa do Prémio António Patrício da SOPEAM,1998; Prémio António Patrício da SOPEAM,2000;  Menção honrosa do Concurso “Arte na Medicina”,2003;  Prémio António Patrício da SOPEAM, 2004;  Prémio Nacional de Poesia de Vila de Fânzeres,2012 e Prémio Nacional de Poesia de Fânzeres,2014. CONTOS:  1ª Menção honrosa do Concurso Nacional de Conto Manuel da Fonseca,2004;  Menção honrosa do Prémio Literário Paul Harris,2005; 2007; e 2015. ROMANCE: “As palavras sensuais da nossa urgência”,2007;  Prémio Fialho de Almeida, 2011. LITERATURA JUVENIL: “Uma professora ao canto do olho”, em co-autoria com Maria Armanda Tavares Belo,2008.
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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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