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» » » Bárbara Lia: O Quintal da Poesia



Manoel de Barros sempre extasia com sua metalinguagem encantatória. A leitura poética do mundo tão original, pura e abissal nos leva a um espaço de transcendência e nos coloca ao seu lado em uma viagem poética de deslumbramento. O próprio Manoel nos diz de que forma ele lia o mundo...
“Tem horas leio avencas. / Tem horas, Proust. / Ouço aves e beethovens”
 “O menino de ontem me plange”, diz Manoel de Barros. Também carrego o olhar do ontem. O olhar da infância, ainda purificado, para colher versos neste tempo que é mais galvanizado. Longe das borboletas que eu perseguia no quintal de chão de musgo, sol de verão intenso na pequena Peabiru. Noites brincando de esconde-esconde entre árvores iluminadas por pirilampos.
Existe uma facilidade em puxar o fio da memória, trazer a criança pra perto e deixar que ela narre. Quantas crianças em seus quintais poderiam repetir estas palavras de Manoel de Barros...
“Um lagarto atravessou meus olhos e entrou para o mato.
Diz-se que o lagarto entrou nas folhas, que folhou...”
Existia esta simbiose das coisas lá fora: Lagartixa que era folha, coruja que era tronco, cobra que era terra. E se dava diante dos olhos e nos assustava... Ou, nos encantava.
Fiquei a pensar neste verso do “Livro sobre Nada”: “Aonde eu não estou as palavras me acham”

Este verso contraditório remete a uma canção na voz de Milton Nascimento...
Certas canções que ouço / Cabem tão dentro de mim / Que perguntar carece / Como não fui eu que fiz?...
Este verso do avesso do Manoel de Barros fez todo sentido pra mim. Quantos poemas li, quantos versos me enlearam como se fosse minha própria pele, e que eu adoraria ter escrito?
“Aonde eu não estou as palavras me acham” diz da consonância dos sentires. Aquilo que provoca um pequeno terremoto interior pela constatação: mesmo não estando lá as palavras me acharam. Muitas vezes, séculos antes, um poeta encontrou a palavra que era para mim. Quiçá ontem mesmo, pela voz e alquimia de outro poeta, uma palavra foi dita a mim. Este mistério das palavras que acham uma pessoa e que esta transmite a pessoas. Este mistério dos versos propalados, vestidos, repassados é incrível. E a Poesia acaba por ser a fonte onde os poetas bebem, por isto eu amo este verso do Manoel...

“O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina”

Posso enlear tudo para falar, ao mesmo tempo, dos meus poemas mais amados e poetas que os colheram onde eu nem estava...
Não dá para colocar em ordem de importância. Cada poeta que li foi crucial em um instante da vida... Quando penso em perdas, soa a poesia de Elizabeth Bishop, que começa assim:

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
(...)

Quando a lembrança de um amor se instala e entra agulha fina no coração, soa o fragmento de um poema de Hilda Hilst...

De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio do avesso
Para tocar a luz do teu começo

Poetas descrevem seus encantos de várias formas. Manoel de Barros disse:
“Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.”
E eu quando falo deste mesmo girassol, ele incorpora o sol, como neste fragmento:
Não pertenço a nenhum lugar / Não pertenço a ninguém /Minha casa é o olhar azul de Van Gogh / Dentro dele as estrelas enlouquecem / E o girassol incorpora o sol...
Os poetas ajudam outros poetas a se libertarem das amarras da escrita... Manoel diz:
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural
Estas palavras abrem portas de possibilidades jamais imaginadas, leva poetas a ter ousadia e validar o que Lorca escreveu: A Poesia é o impossível feito possível.
Decifrei uma equação para falar sobre o verso “Aonde não estou as palavras me acham”. Consegui “costurar o invisível”. Até pensei que jamais conseguiria e um dia escrevi isto em um poema:

Não sei costurar o invisível
A cada crisálida
Rompida antes do tempo
Borboletas morrem
Em minhas mãos

E vem Manoel a nos ensinar a costurar o invisível neste nosso quintal. O quintal da Poesia. Um quintal maior que o mundo.

Setembro de 2015

Citações do texto:
Versos de Manoel de Barros do Livro Sobre Nada (Editora Record – 1996)
Fragmento do poema de Elizabeth Bishop “Uma Arte” tradução de Paulo Henriques Britto
Fragmento do poema de Hilda Hilst do livro “Sobre a tua grande face” (Massao Ohno Editor, 1986)

Bárbara Lia



Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Publicou dez livros, entre eles: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR) e Respirar (Ed. do autor). Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar -  Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo).


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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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