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» » Vera Albuquerque: Sobre o máster chef infantil e outras coisas não tão infantis (Reflexão)

Vivemos um mundo maluco. As pessoas tem dificuldade em identificar e exercer seus papeis. Os pais não conseguem punir, (no sentido de punir e no sentido de educar) seus filhos por culpa, por negligencia, por comodismo, por modismo, por ignorância (ignorante é aquele que ignora, que não sabe fazer), por incompetência e até por falta de tempo. Os professores não punem nem conseguem orientá-los pelos mesmos motivos que acabo de mencionar, acrescentando ainda mais um fator – a legislação, que confunde o educador, de modo que ele não consegue adotar comportamentos que levem o aluno a compreender os limites, mesmo que esse aluno já traga de casa esse vácuo educacional.

Penso que se formos conscientes e seguros do papel que devemos exercer, não há dificuldade em fazê-lo e muito menos em levar os outros a perceber isso.

Mas a distorção e a confusão estão generalizadas. No campo educacional, alunos mandam nos professores, no familiar os filhos tiranizam os pais, no político...bem, nem vou entrar nesse mérito.
Ocorre que sob o pretexto de devolvermos para o mundo rebentos bem-sucedidos, competentes, seguros de si, felizes, realizados e todo o blá blá blá dos manuais da autoajuda, estamos fabricando mini adultos, que de forma bizarra, tentam inserir-se e participar de um mundo que não é o deles, como se assim fosse.

Acreditam eles que são adultos, e os pais acreditam que se levarem seus filhos a pensarem e agirem assim os eles (os filhos), estarão construindo um futuro de possibilidades, de escolhas corretas, de êxito e prosperidade.

Almejam que dessa forma seus filhos serão pessoas capazes de tomar decisões, de organizar, ordenar, traçar a alcançar suas metas, motivadas, persistentes e a palavra da moda resilientes...aqui estou eu novamente repetindo fórmulas de autoajuda.

Não faltam exemplos no nosso dia a dia: crianças que escrevem e lançam livros, usando o mesmo espaço que os adultos usam para esse fim...penso que criança primeiro deve ler...depois escrever...salvo os casos de virtuose, mas pensando bem, nem mesmo nesses; crianças que cantam como adultos, vestem-se como adultos, falam como adultos, argumentam como adultos, gritam como adultos e são malvados e facistas como adultos. Se aguçarem um pouco mais o senso de observação irão constatar tudo isso.

Mas o preambulo dessa fala é um tal programa de televisão que vem chamando a atenção do público de todas as idades: máster chef para crianças (não sei o nome oficial do programa).
Na versão adulta os participantes, choram, se desesperam, entram em pânico, se degladiam entre si e de forma hipócrita desejam sorte um ao outro. Cada fase do programa é recheada (perdoem o trocadilho) de disputa, maluquice, um pouco de criatividade (que logo é açodada pela crítica sádica dos juízes), vaidade e alívio, quando o colega é eliminado – antes ele do que eu...

Mas são adultos e, portanto, responsáveis pelas suas escolhas, suas bobagens, futilidades, erros, acertos, realizações, frustrações, e já deverão ter lido todos os livros do Augusto Cury e da Martha Medeiros, sendo assim, deduz-se, que estão suficientemente preparados para todas as adversidades provenientes de uma competição desse nível (pavorosa a meu ver).

Mas, não contentes com tanto choro e ranger de dentes, resolvem então formatar o mesmo programa com um diferencial - uma versão infanto-juvenil.

Uma maravilha. Progenitores e parentes em geral orgulhosos dos seus pimpolhos super-dotados, crianças orgulhosas de si mesmo, mas inseguras, o que é normal. Mas os pais, já saturados de conceitos intelectualóides da educação pós-moderna, acham que estão craques e acreditam no mantra  do - tudo posso naquele que me fortalece (o sucesso, o poder, a fama), e passam para os filhos a certeza de que se não forem fortes, persistentes, competentes, seguros e vendedores não haverá lugar para eles, na grande cozinha do mundo, onde são triturados, depenados, cortados, espicaçados, assados e devorados os fracos, os incompetentes, os menos capazes...

Não há lugar para o fracasso na vida das crianças do master chef, assim como não há lugar para fracassados no mundo.

Assisti dois programas da versão infantil (me mordendo de aflição), e o que eu vi foi a mesma configuração da versão adulta: crianças chorando, desesperadas, em pânico, sob uma enorme pressão...pra que mesmo???  Não sei. Não consegui responder essa pergunta, que já havia me feito na versão original do programa.

Qual o sentido de colocar crianças fazendo coisas de adulto, usando instrumentos de adulto, passando por situações de adulto, num lugar de adultos, cercadas por adultos que deveriam cuidar delas e não estimulá-las ao sofrimento?

Me dirão – acho saudável porque as crianças assim tiram o trauma do fogão...querem dizer assim elas estarão estimuladas a cozinhar...sério???

Cozinhar é uma tarefa prazerosa que as crianças adoram fazer em conjunto, com os amigos da mesma idade, com a família com os pais, de forma
divertida, bagunçada e suja...sim. Suja. Quem não se suja batendo um bolo ou fazendo um doce de chocolate?

Agora querem também excluir o lúdico, o piegas, os pequenos espaços que ainda sobram espontâneos e repletos de generosidade: o momento da alimentação, da confecção da comida, da partilha, da troca.

Agora virou concurso televisivo, supervisionado pelos adultos, com direito aos louros da vitória. Da vitória de um, em detrimento de muita coisa melhor e mais saudável que essas crianças poderiam criar, resolver e descobrir em ambientes menos insalubres e mais próprios para a idade e para o momento que atravessam. E o melhor: juntas, ajudando-se conhecendo-se e não disputando entre si.

Isso é resultado da confusão de papeis que precisamos dar conta no nosso dia a dia. Mas uma coisa não podemos permitir: não usurpem da criança o direito de ser criança.

Não podemos adivinhar o futuro nem tampouco supor que precisamos fortalecer nossas crianças para ele, simplesmente pelo fato de que o futuro não existe.  E se pudermos exercer algum controle sobre ele, não será na confecção de crianças competitivas, estimuladas para a disputa somente, fortes, seguras e o que mais acharem pré requisito para a realização pessoal e profissional.

O que existe é um presente que deve ser vivido com prazer, alegria e leveza. Essencialmente na infância. E isso não se faz com uma faca de corte na mão esquartejando um frango.

Vera Albuquerque





Vera Albuquerque é curitibana, Editora – diretora da Editora Bolsa Nacional do Livro, escritora, poeta, consultora editorial, especialista em escrita e elaboração de material didático, mestranda em educação, criadora de projetos de formação para professores nos estados e municípios, coordenadora interina do Fórum das Entidades Culturais de Curitiba e PR., membro de Centro Paranaense de Letras.
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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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