Eloir Jr.: PÊSSANKAS e a tradição Pascal

Em março do ano bissexto de 2016, iniciam-se as comemorações, preparativos e reflexões para Páscoa, o que nos remete em primeira instância a pensar nas delícias confeccionadas com chocolates na forma de um ovo, porém esta data sazonal cristã está além desta especiaria de cacau, e atinge o ápice da expressão de uma cultura milenar da Eslava Ucrânia, as pêssankas.

Pêssankas são um dos símbolos da Páscoa para o povo ucraniano e seus descendentes. Trazem impressos na frágil e tênue casca de ovos de diversas aves, a história de uma civilização milenar cujas raízes estão além dos tempos. Frágeis e delicadas na aparência, as pêssankas, nos contam a história de um povo trabalhador, culto, religioso e sobretudo criativo que procura transferir para a superfície branca do ovo, uma riquíssima e peculiar simbologia.


“Traços delicados, formas ondulantes e cores da primavera nas pradarias e estepes, constituem a mais pura expressão de sentimentos e desejos de paz infinita, eternidade, saúde, prosperidade, fortuna, religiosidade, entre muitos outros adjetivos e desejos para o bem.
O imigrante ucraniano conseguiu preservar essa arte através do ensinamento de mãe para filho. Além disso, pesquisando, descobriu novos pigmentos, incorporando as matizes da natureza da nova terra. Cultuando e difundindo já por mais de um século essa tradição, os ucranianos e seus descendentes trazem o que já de mais orgânico e profundo dessa arte popular ucraniana, a pêssanka”. (Baseado na Fonte: exposição Páscoa – Centenário da Imigração Ucraniana no Brasil – 1991).

Breve História
A pêssanka é uma arte em ovos e tem origem a mais de 3000 a.C, sendo um dos símbolos mais importantes da cultura ucraniana, e seus desenhos escritos nesta superfície catenária trazem belas mensagens como paz, harmonia, amor, saúde, prosperidade, amizade, entre outros. A palavra pêssanka é proveniente do verbo “pyssaty” que em língua eslava significa “escrever”, então posso dizer que são palavras e passagens da vida, pois o ovo é o ícone representativo da vida.
A arte da pêssanka expressa a essência do espírito do povo ucraniano, sendo uma forma de ligação entre presente e passado, manifestando por meio dos desenhos o íntimo do ser humano, com seus anseios, realidades, conceitos e esperanças. Elas também transcendem a Páscoa e se tornam atemporais, havendo outras comemorações em que são elaboradas e presenteadas, como por exemplo, a chegada da primavera no hemisfério norte, casamentos, batizados, aniversários e a celebração da amizade e da vida. Um dos significados mais fortes é o da ressurreição de Cristo e nascimento da nova flora com a primavera, nesta época os ucranianos passam a se cumprimentar com os dizeres: Khrestós Voskrés! (Cristo Ressuscitou!), Voísteno Voskrés (Verdadeiramente Ressuscitou!).



Rito Pascal

Um dos mais belos momentos desta época (Páscoa) é a Bênção das Paskas (pão especial e ritualístico da Páscoa, enfeitado com ramos de trigo, folhas e flores feitos com a própria massa). As mesmas são levadas às igrejas e memoriais em cestas decoradas com lenços, bordados típicos e fitas, contendo alimentos como carnes defumadas, frutas, bolos, sal, temperos, pães, ovos cozidos, vinho e também as pêssankas, para serem bentas no sábado de aleluia e consumidas na manhã do domingo de Páscoa onde toda a família se reúne para confraternizarem, iniciando pelo ovo cozido, onde o patriarca da família o corta no número de pessoas que estão à mesa, distribui e faz os desejos de Páscoa, alimentam-se da Paska e das demais especiarias bentas.

História remota
Segundo o livro Pêssankas - A arte ucraniana de decorar ovos, com texto de Eduardo Sganzerla, edição 2007 e também diversas bibliografias européias, arqueólogos descobriram em 1992 nas ruínas da Igreja de Krylos, antiga Galícia-Ucrânia ocidental (região ucraniana de maior imigração ao Estado do Paraná), uma pêssanka de cerâmica datada de 1.300 a.C., levando a crer que os mais antigos “ovos escritos”, podem ter sido criados por ancestrais que viviam em terras, hoje ucranianas desde 3.000 a.C. O hábito de presentear com pêssankas iniciou na era cristã, quando com o advento do cristianismo em 988 d.C. na Ucrânia, onde a Igreja incorporou símbolos religiosos e o ritual da Páscoa na confecção dos ovos celebrando a ressurreição de Cristo, pois ovo é o símbolo da vida. A tradição das pêssankas se faz em todos os países de origem eslava, sendo mais forte na Ucrânia com simbologia geométrica e florais na Polônia. Há na Alemanha também um estilo muito próprio e peculiar de pintar ovos, sendo destacado o Bauer malerei.

Alguns significados das cores e simbologia
Para esta época Pascal a cor branca representa a pureza, a cor vermelha, esperança e paixão de Cristo, a cor verde o renascimento, a cor azul a vida, cor roxa a fé e cor preta a eternidade. Os símbolos mais usados neste período são; as estrelas que formam rosáceas e significam o amor de Deus para com os Homens, linhas em arabescos que são a eternidade, a cruz representando a paixão, morte e ressurreição de Cristo, pontos que são as lágrimas de Maria, triângulos representam a Santíssima Trindade, borboletas a ressurreição, árvores o renascimento e peixes o cristianismo em si.  



Mantendo a tradição das Pêssankas
Homens, mulheres e crianças aprendem a confeccionar pêssankas, principalmente no período letivo da primeira infância onde são passados os primeiros valores culturais, mais em qualquer faixa etária é possível aprender. Em Curitiba, a Escola Madre Anatólia, tem a pintura de pêssanka como parte do aprendizado curricular e nas sociedades étnicas como a dos Grupos Folclóricos Poloneses e Ucranianos, Barvinok, Poltava e Wisla também ensinam a arte das Pêssankas. Por todo o Estado do Paraná, nas principais cidades de colonização eslava como Prudentópolis, Francisco Beltrão, Mallet, União da Vitória entre outras, há também a difusão da arte, onde formamos em torno de 400.000 descendentes de ucranianos e há também um grande número de descendentes de poloneses.
Ainda que as pêssankas corram o risco de desaparecer, acredito que a vitalidade e perseverança destes povos que trouxeram ao nosso Estado esta prática são fortes, pois venceram muitas guerras, invasões, comunismo, tentativas de destruir a identidade étnica e atualmente esta crise no leste da épica Ucrânia. Mas a arte sempre sobreviveu e atravessou um Atlântico para estar presente aqui através de algumas gerações que ainda prosperam na cultura dos hábitos e costumes, e as pêssankas continuam acompanhando a vida desta gente que veio para o Brasil em busca de um futuro melhor para seus filhos e que hoje respiram a liberdade.

A Ucrânia, em 1991 finalmente adquiriu sua independência, exigida pela população que saiu às ruas e hoje, além do seu valor cultural, simbólico e artístico, as pêssankas passaram a ser um símbolo de longevidade para uma Ucrânia livre e independente e tornou-se também um símbolo icônico do Estado do Paraná.

Concluo com as palavras de Helena kolody, nossa imortal poeta: "A Ucrânia não morrerá jamais enquanto houver um grupo jovem que dance suas danças típicas, cante suas canções folclóricas e cultive as suas tradições como uma chama sagrada. Os valores Ucranianos há de passar de uma geração para outra até o fim dos séculos".
Eloir Jr.



Eloir Jr. é artista Plástico curitibano, pós-graduado pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e graduado pela Universidade Tuiuti do Paraná, colunista cultural do Sztuka Kuritiba, curador e professor de arte. Há 20 anos é estudioso das etnias europeias no Estado do Paraná, com enfoque principal na cultura eslava da Polônia e Ucrânia, onde expressa seus trabalhos em harmonia com ícones paranistas; araucárias, pinhões e gralha azul.


Comentários