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» » Ilario Ieteka: Um Grito na Madrugada


Eu procuro e não encontro uma explicação. Eu ando assustado com o comportamento da nossa juventude. Eduquei minha família com referência no estilo dos meus antepassados. Meu pai ensinou-me como se comportar perante os mais velhos sendo a obediência primordial.

Os pais mandavam, desobedecer nem pensar. Tudo era controlado por eles. Até para irmos a um baile era necessário o consentimento, por este motivo muitas vezes, fiquei zangado, tive vontade de gritar, xingar, partir para a ignorância para ser ouvido e poder realizar minha própria vontade. Porém pela educação adquirida, sempre respeitei meus pais e hoje valorizo tudo o que aprendi com eles.
Eu e meus irmãos tínhamos hora para sair e voltar. Havia restrições para tudo e sinceramente ninguém morreu por essa disciplina. Aos dezoito anos, eu me sentia uma criança, pois meus pais diziam que ainda não estávamos preparados para os perigos do mundo. Mamãe era cuidadosa, alertava-nos sobre as drogas. Naquele tempo, o cigarro era um deles, o outro era a maldita cachaça.

Ela não se descuidava um minuto dos filhos, fazia de tudo para prevenir, dizia:
- Cuidado com os amigos! Principalmente, quando eles te oferecem cigarros ou um gole de cachaça. Por favor, não aceitem! Porque o inÍcio de todo vício começa assim de repente. Hoje parece ser bom e amanhã? Você vai queimar seu dinheiro. Sua saúde começa a declinar, os males são muitos. A pinga? Ainda é pior! Você fica desequilibrado, briga por qualquer coisa, vira chacota dos amigos, perde o respeito com os familiares. Filho... Quem vai sofrer com tudo isto pode ter certeza que somos nós, os pais.

Mamãe vivia preocupada, sua responsabilidade era grandiosa perante nós, advertia:
- Vão se divertir, mas lembre de meus conselhos!! Porque o amanhã poderá ser tarde.

Nós sabíamos que ela estava com a razão. Eu e meus dois irmãos queríamos a diversão.  No auge da testosterona ninguém nos segurava. Lá fora o mundo fluía em gargalhadas, balançar o coreto, extrapolar os limites era o nosso objetivo. Por que pensaríamos no amanhã? Tínhamos certeza que o futuro era no dia em que estávamos vivendo. Isso não é verdade e nem tudo é alegria.
Hoje, muitos anos depois, eu estou casado. Tenho uma família maravilhosa. O mundo está diferente, a juventude me assusta. Os jovens parecem que vivem em tribos, outra língua predomina e eu não consigo me ver impondo uma educação como fez meu pai e minha mãe. As crianças que nasceram nesta era são inteligentes e astutas. A televisão, o computador e outros meios de comunicação estão interferindo em tudo. No passado a linguagem universal, apesar dos contrastes de idade, era respeito, o amor, a família valorizada.

Os perigos que existem hoje são imensos em relação aos de ontem. Começando pelo crack, cocaína, maconha, álcool, pornografia e outras pragas. A imoralidade nociva está em todos os lugares, é o mal do século, ninguém está totalmente livre desta calamidade, tanto faz ser rico ou pobre, preto ou branco.  Eu fiz de tudo para livrar meus filhos das drogas, mas infelizmente senti isto na própria família.

Jamais pensei que meu filho por efeito das drogas mudasse sua conduta social, que seu caráter fosse se desintegrando como a pedra no cachimbo que ele mesmo acendia. Meu próprio sangue era um viciado, mentiroso, ladrão, efeitos da degenerescência da droga. Infelizmente o fato aconteceu.
Eu e minha esposa conversávamos sempre com nossos filhos referente ao uso de drogas. Nunca pensei passar num beco tão obscuro como do crack. Tem um ditado que é perfeito para este momento, “diga-me com quem tu andas e te direi quem és”. Meu terceiro filho, um rapaz forte, saudável, trabalhador, amigo, carinhoso, companheiro de pescas, tinha a cabeça no lugar. Pelos caminhos, meu filho fez amizades duvidosas, baladas e festas, deixavam-me de orelhas em pé. Nesses momentos eu lembrava dos conselhos da minha querida mãe, agora sabia o que era a responsabilidade dos pais, chegou a minha vez de tomar uma atitude, ter pulso firme com o comportamento dos filhos. Na verdade nunca vemos os erros de nossos próprios filhos.

Fotografia de Neni Glock
Neste vai e vem, meu filho arranjou uma namorada. Ele parecia ser um jovem responsável, apaixonado, não demorou o casamento aconteceu. Para concluir a união, logo veio uma filhinha, o lar estava em festas. Eu, um vovô coruja estava eufórico, continuei na defensiva, o medo não me deixava em paz, seus amigos rondavam a minha casa. Num descuido, o rapaz sumia, as escapadinhas sem motivo era o meu pior tormento. O rapaz se mantinha na retaguarda, sempre tinha uma desculpa, voltava tarde para casa, deixava a esposa e a filhinha em desespero. Ao ser pressionado, jurava de mãos juntas que não estava envolvido com drogas. Discutia que não era louco de se envolver com crack, porém surgiam mentiras e mais mentiras.

A desconfiança crescia, não acreditar na própria intuição, imaginar se quer que um filho perdeu a compostura... A gente não acreditava, aliás não queria acreditar e esse foi o meu pior erro. Deveríamos ter checado os lugares onde dizia ter ido, é dolorido para qualquer um quando a verdade vem á tona. Meu filho já estava no fundo do poço, foi no desespero que ele veio pedir socorro. Ficamos desorientados com esta confissão, não conseguíamos acreditar no que acabara de nos revelar. Ele nos abraçou chorando, disse:
- Pai e mãe. Escondi minha agonia até onde pude, mas agora não estou suportando tanta angústia e sofrimento. Por favor, ajudem-me, estou trocando tudo o que tenho pelo crack. Minha casa está ficando vazia. Por este ato de loucura a minha família está passando necessidades. Não queria ver vocês sofrendo, mas preciso de ajuda. É urgente!

Conseguimos convencer meu filho, que a internação era o melhor caminho, porque sozinho não teria forças, ajuda médica era a solução. Foram seis meses de isolamento, pensamos que todos e principalmente nosso filho estávamos livres desta praga. O tratamento fez meu filho relembrar dos compromissos com a sociedade, do valor da família, do aconchego da esposa, do exemplo a ser dado a pequena filha. O moço voltou com fôlego para uma vida nova, estava alegre, bem disposto, arranjou emprego. Todavia a força do inimigo é bem entrelaçada, estava impregnada na alma do pobre. Meu filho conseguiu nos ludibriar, agonizado pela dependência se tornou astuto, com planos as escondidas voltou a se drogar. O que ganhava no emprego gastava com as malditas pedras. Quando ele chegava em nossa casa, abraçava-nos, grato beijava-nos, um filho exemplar. Nós acreditamos em tudo que ele nos dizia. Achávamos que o tempo obscuro era algo do passado. Não percebíamos nada de anormal, todos os sábados eu ia pescar com ele, era o meu eterno amigo de pescarias. Sinceramente pensei que o meu filho estava curado daquela doença.

Sempre esperto e ativo. Tudo era levado em brincadeiras, seu temperamento era de uma pessoa vencedora. Nós, pai e mãe ficamos cegos, iludidos com os sorrisos interpretados diante daquela mentira, perante tais problemas, não admitíamos que ninguém falasse mal dos nossos filhos. A tempestade estava se formando no horizonte, antes que o mal viesse em sua totalidade, meu filho aceitou ir trabalhar por um tempo fora do estado pela própria empresa, de certo pensou que lá fora se livraria do problema. Seu desejo em momentos de lucidez realmente era  livrar-se das drogas. Foi um erro atrás do outro, uma inconstância sentimental sem fim e não adiantou nada. Foi pior ainda, não tinha ninguém para alertar ou até mesmo ameaçá-lo em momentos de êxtase, os efeitos alucinógenos. As drogas estavam ao seu alcance e os amigos de trabalho também estavam viciados. Quando retornou para casa, parecia ter vindo de uma guerra, os problemas só aumentaram, perdeu o emprego, dia a dia foi dilapidando tudo que possuía. Nossas vidas viraram um verdadeiro inferno.
Para mostrar apoio, pensei em alguma coisa para meu filho largar do vício, lembrei que seu sonho era um carro e fiz uma promessa inocente em influência do amor paternal:
_ Meu filho, caso você jure que largará do crack, eu te darei um carro, é o teu sonho! Fechamos o acordo?

O rapaz sem conter a alegria momentânea, recebeu o carro. No início fui surpreendido com o bom comportamento. Ele parecia ter esquecido das drogas. Sua vida pareceu dar uma guinada para o bem. Pensamos que graças a Deus, nosso filho estava cumprindo com o acordo. Não imaginei tal qual é a dependência química no corpo humano. Não sabia das reações momentâneas que a maldita droga proporciona, tornando-se mais forte do que eu supunha, então meu filho teve outra recaída para o nosso infortúnio. O sossego acabou de vez, os dramas voltaram com força total.

A informação que tínhamos era que estava trabalhando em uma construção, mas dinheiro nunca chegou até a família. O homem estava enlouquecendo, soubemos que um amigo tinha lhe salvado a vida. Ele tentou pular do oitavo andar e por um triz o danado tinha dado cabo da própria vida. O colega não largou mais de seu pé, trabalhavam um amarrado ao outro por uma corda. A falta de sensatez e outros motivos, ele perdeu novamente o serviço. Com o dinheiro do acerto partiu para o crack até não restar um único centavo.

No tempo que transcorreu, meu filho estava cansado de suas próprias respostas de forma evasiva ou com as mentiras contadas a todos que o amavam, os períodos de depressão com euforia, problemas com dinheiro, a falta de interesse pelo dia. Resolveu planejar a própria morte, com o mesmo carro que ganhou para se livrar da droga. Sabia que não conseguia parar com a dependência. Acreditou que ceifando a vida, arrumava um jeito de resolver seu problema psicótico e social, com a tristeza e desespero dos pais, esposa e filha. Por intermédio divino, seu plano falhou, ele enfiou o automóvel na traseira de um caminhão, arrebentou com o presente, perda total, levou uns arranhões. Prejuízo de grande monta. Fomos encaixando o quebra-cabeça, depois de outros acontecimentos é que descobrimos esta história maluca. Nunca imaginei que um filho tivesse uma idéia tão estapafúrdia. Deveria estar completamente perturbado, para cometer uma estupidez de tal magnitude. Sua esposa, coitada, andava tão assustada que guardou todas as facas e cordas que tinha em casa. Tinha medo que algo ruim viesse acontecer, o marido tinha idéias mirabolantes para o tal suicídio. Fazia ameaças, assustava a família, andava depressivo, o mundo para ele parecia ter chegado ao fim mesmo respirando.  
    
Era eminente que algo ruim estava para acontecer, a desgraça se aproximava com velocidade, meu filho não pensou na esposa, nem em sua filha de nove anos, esqueceu do pai e da mãe, que o amavam tanto. No dia vinte e um de dezembro de dois mil e dez, estava sendo comemorado em minha casa o aniversário de outra neta. Com a sobrinha, ele iria passar um dia festivo, mas não foi. No final da tarde, próximo da minha casa, os traficantes assassinaram um jovem com sete tiros a queima roupa. Era seu amigo de baladas. A notícia apavorou meu filho, porque o próximo jurado de morte pelo tráfico local era ele. Nós não sabíamos que o garoto estava devendo dinheiro pelo consumo abusivo, os jornais demonstram que eles não perdoam, simplesmente matam até pessoas da família do devedor. O dia terminou em ebulição, todos nervosos pelos acontecimentos do vizinho abatido por sete balaços. Por volta da meia noite, todos se recolheram aos seus aposentos sem estardalhaços. Meu filho sabia que sua hora estava por um fio, sua hora tinha chegado, o rapaz foi dormir sem causar qualquer suspeitas aos familiares. A semana era de festas, sua irmã mais velha aniversariava no dia vinte e três. Dia vinte e cinco chegava o natal, aguardado pela família com grandes alegrias, pois somos católicos e evangélicos, a festa é para todos os cristãos.

Na madrugada do dia vinte e dois, uma catástrofe acontece, o terror e o desespero invadem minha casa. Fui despertado pela nora e a esposa, havia muito choro e súplicas, parecia algo assombroso, não entendia o que estava acontecendo e com dificuldades fui até o quarto do meu querido filho. Ao adentrar deparei com um espetáculo horroroso, dantesco. No peito, um sufoco causado por um sentimento infinito de amargura e dor, meu querido filho estava enforcado na grade da janela, com menos de um metro de altura, o próprio cinto deu cabo a sua vida. Uma visão estarrecedora, sua língua estava um palmo fora da boca. Não consegui dominar tamanha dor, soltei um grito, um berro tão pavoroso, que acordei meus vizinhos. Foi um Deus nos acuda, meu cérebro entrou em confusão com o choque da realidade. Eu chamei pelo meu filho, fiquei como se estivesse louco. O relógio não tinha sentido, mas em poucos minutos minha casa estava cheia de amigos, que vieram tentar me acalmar e confortar-me. Não tinha ninguém que fosse capaz de compreender a dor da minha alma, perder um filho com trinta e quatro anos, jovem, forte e bonito. Deixei a família em polvorosa, chorei mais de dez horas ininterruptamente. Minha esposa estava à beira de um colapso nervoso. Mesmo assim ele se foi num piscar de olhos, num sono sombrio.

Pensar em viver todos os dias, nas datas comemorativas. Como iríamos passar o aniversário da filha, o natal, ano novo, sem o nosso menino. Comecei a declinar nos pensamentos dolosos em oração:
- Senhor, meu Deus do céu que dor, minha família está em luto!! Jesus Cristo, por favor, não me deixe perder a fé em voz. Porque deixou meu filho cometer este ato abominável?? Deus perdoe-me, estou tão triste, chocado com este revés de acontecimentos. Acho que não conseguirei acompanhar o cortejo fúnebre do meu filho amado. Estou doente, sofrendo muito, não consigo acreditar que perdi meu garoto para o maldito crack!!

Eu li numa pesquisa, que estar presente, é a melhor forma de evitar o envolvimento com as drogas. No meu caso, não foi suficiente para evitar o dano na minha família. O assunto deve permear o dia a dia. Aos pais de adolescentes, tenha nas notícias da mídia uma aliada, para perguntar o que seu filho pensa a respeito. O conselho profissional é corrigir as fantasias de glamour, de uso sem risco, de controle. Mostrar exemplo de carreiras arruinadas e de mortes precoces como de meu filho. Hoje entendo porque mães e pais vão a público clamar seu desespero para o Estado providenciar justiça e segurança. O mundo das drogas é avassalador, potencializador das frustrações sentida pelos homens, a bancarrota da família, a arma engatilhada direto na psique do desvalido. Uma única família perde uma batalha com o filho morto nessa calamidade social, mas a probabilidade da soma de experiências na comunidade para evitar o consumo de drogas seja a vitória na guerra desleal, que leva nossas crianças para a tumba. O governo, as autoridades, todos em sentido geral, temos o dever de salvar nossos jovens. Façamos rápido um milagre de salvação, caso contrário, estes malditos vícios ainda vão derramar muitas lágrimas, como aconteceu comigo, e garanto que não há programa social que tire o rótulo na minha vida de um pai triste e amargurado.

Ilário Ieteka


ILÁRIO IETEKA: Nascido em Rio Negro no Estado do Paraná, se criou na cidade de Ponta Grossa e Tibagi. Com pouco mais de 20 anos veio procurar melhores condições de vida na capital, e com muito esforço e dedicação tem um Currículo de Gerente de vendas há mais de 30 anos, na cidade de Curitiba/PR. Casado há 48 anos com Aglair Cruz Ieteka. A esposa, duas filhas e uma neta, que representam sua maior alegria. Seu hobby é cuidar de seus animais domésticos, pescar e escrever seus pensamentos e idéias para transmitir conhecimento. Publicou os livros:  Vitória de uma Vida Simples. Editora InVerso, Curitiba, Paraná, 2014;  (Des)Encontros, Editora InVerso, Curitiba, PR, 2013; Um filme jamais esquecido e outras crônicas. Editora Instituto Memória, 2011. Tem mais de 50 publicações na Revista Eletrônica Usina de Letras.

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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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