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» » Ilario Ieteka: Um tiro quase perfeito


Um dia chuvoso, daqueles que não se pode sair de casa. O comércio parado, a loja arrumada, sem fregueses. Não tínhamos nada para fazer até que o tempo melhorasse. Começamos a falar sobre caça e pesca.

Setenta por cento dos funcionários vieram do interior. Tinham histórias diferentes para contar. Algumas engraçadas, outras bizarras. O tema se desenrolava com seriedade por nós.
Eu comecei contando sobre uma caçada de traíras, que fiz no rio Capivari (PR). É um peixe de carne saborosa, gosta de tomar sol nos dias frios, ficando a flor da água, dormindo, tornando-se alvo fácil. Eu e meu irmão resolvemos ir atrás destas belezas. O dia estava frio, sem ventos, um sol radiante, era o dia perfeito para uma boa caçada. Todos os funcionários atentos para o final, então continuei contando:



- Eu e meu irmão saímos às dez horas. Pegamos um bote, remamos dois quilômetros rio abaixo. Meu irmão era muito habilidoso. Eu pedia que ele remasse devagar em direção ao capim, lugar onde ficavam as maiores traíras. No lado direito do rio, não encontramos nenhum peixe, então falei para meu irmão:
- Afonso, vamos voltar?
- Ilário, eu acho que elas estão do outro lado do rio. Nós temos que matar pelo menos uma, caso contrário, o almoço de hoje não haverá carne.
Eu estava em pé no bico da canoa, examinando a água. Todo cuidado para não fazer barulho. Qualquer batida do remo na água avisaria o peixe para fugir. Contei que tinha carregado a espingarda com quatro chumbos grossos. Teria que dar um tiro certeiro na cabeça, se não ela escaparia. Remamos agora dois quilômetros para o lado esquerdo. Não havia nenhum peixe, mas meu irmão continuava a insistir, que fossemos até a curva que ficava há uns duzentos metros à frente. Estávamos desanimados por pensar que em todo aquele percurso, não encontrávamos nada.

Naquela curva que víamos, não havia capinzal. Fomos devagar, e na areia vi uma coisa escura, parecia um pedaço de madeira. Meu irmão fez gestos mostrando que era um peixe dos bons. Não acreditei, mas chegando perto, vi uma linda traíra. Aproximamos-nos quase sem respirar e ela estava a uns quinze centímetros dentro d’água. Engatilhei a espingarda, mirei na cabeça, calculei o desvio que o chumbo faria e apertei o gatilho. O peixe deu uma rabada e saiu fora do rio. Meu irmão remou até o barranco e peguei a traíra. Coloquei-a dentro do bote, ela estava pulando. Comecei a examinar para ver quantos chumbos tinha acertado na cabeça do peixe. Para minha surpresa, um chumbo certeiro foi o suficiente para uma boa pescaria. Para terminar a história, falei que tinha acertado apenas um chumbo porque não queria estragar o couro do peixe. Então todos me olharam com sorriso debochado. Confirmei que era verdade o episódio, e mostrei minha convicção para não deixar dúvidas.

Roberto respondeu que todos acreditavam em mim e que tinha presenciado uma história parecida, mas não com peixe e sim com uma ave chamada inhambu. Ele começou a contar:

- Saímos cedo, entramos mata a dentro. Meu pai ia a minha direita, há uns cinqüenta metros. Andávamos devagar e sondando, cautelosamente para surpreender os inhambus. Ele tinha batido dois e eu nenhum. Não queria sair com a mão abanando. Caminhamos um pouco mais, e nada do bichinho aparecer. Resolvemos fazer uma parada para nos abastecer. Precisei fazer a minha necessidade fisiológica, fui até um valetão, arriei as calças e agachei muito tranqüilo com a espingarda na mão. Nesse instante escutei um barulho que vinha na minha direção, era um inhambu que levantava vôo. Engatilhei a espingarda, com rapidez e atirei na sua direção. Não tive tempo nem de levantar a calça. Para minha surpresa, eu havia acertado o tiro. O inhambu veio na minha direção e chocou-se contra meu peito, com o susto caí sentado e a ave morreu nas minhas mãos. Vocês duvidam? Perguntem ao meu pai se isso aconteceu comigo?

Olhamos uns para os outros, rimos e dissemos:
_ Oh inhambuzinho azarado!!!
 Nesse meio tempo, Carvalho interveio:
_ Caçada de inhambu fui eu quem fiz, com meu irmão e o tio João, quando morávamos em Pomerode, Santa Catarina!!

A família dele tinha uma pequena fazenda com lindas matas. Naquele tempo havia muitas aves e animais silvestres. Os rios eram cheios de peixes. Caçar e pescar eram os “hobbys” prediletos das pessoas do interior.

Carvalho falava com entusiasmo e descrevia com tanta convicção a natureza, aves e bichos. Nós que éramos os funcionários do interior tivemos a impressão que os fatos eram verídicos.

Ele continuou com sua história. Comentou que seu irmão e tio tinham espingardas de cartucho. Ele tinha uma pica-pau, carregada pela boca, com uma vareta de ferro. Perguntou se conhecíamos. Nós afirmamos e ainda explicamos que tínhamos esse tipo de arma no passado. Ele pediu silêncio e disse:

- Escutem a história da caçada que fiz neste dia. Às sete horas da manhã, começamos a nos preparar, estávamos prontos e animados. Entramos pelo córrego próximo da nossa casa. Combinamos nos separar para fazer um cerco às aves, assim faríamos uma boa caçada. Andamos muito. Meu tio, em torno da uma hora da tarde, tinha em seu bocó, três inhambus, um jacu, meia dúzia de pombas brancas. Meu irmão tinha dois inhambus e mais dez pombas. Eu também não estava tão ruim. Não contei quantas aves tinha abatido. Queria contar apenas quando chegasse em casa. Resolvemos voltar pelo chapadão, porque ali sempre fizemos boas caçadas. Reunimo-nos para descansar, tomar um lanche e recomeçar a caminhada para casa. De vez em quando se ouvia um tiro ali ou acolá, era meu irmão e meu tio. Parecia que as aves estavam no caminho deles. Eu raramente encontrava uma pomba e já me preocupava com a tirada de sarro. Sempre fui campeão e neste dia parecia difícil superá-los, mas eu não me dava por vencido. Caminhei um pouco mais à frente, a sorte estava ali, abati dois jacus e três pombas. Percebi que os tiros diminuíram. Comecei a pensar que a disputa seria complicada, mas eu poderia vencê-los. Antes de chegarmos em casa, resolvi entrar num grotão. Novamente a sorte estava para meu lado, encontrei um bando de urus. Essas aves vivem em grupos, são parecidas com codornas de bico curto. Vocês conhecem?

Eu respondi:
- Claro que conhecemos, existem muitas delas no norte do Paraná.    
Carvalho continuou com a historia, nos deixando empolgados para o final.
- Os urus, em algumas fases da lua, levantam do chão, sentam empoleiradas próximas uma das outras. Num tiro de pica-pau, você pode matar várias aves.
- Sabemos disso!!
- Escutem o que me aconteceu. Dei um tiro para acertar uma pomba, mas com o barulho espantei um bando de urus, que pousaram enfileirados em uma taquara próxima a mim. Fiquei tremendo, rezando para que não voassem. Eu me sentia muito nervoso. Peguei a pólvora em quantia já medida, coloquei-a na boca do cano e fiz bucha de papel, assim soquei com cuidado devido ao barulho. A espingarda estava carregada. Enquanto isso, eu olhei e contei uns dez urus que estavam na taquara. Minha alegria era tanta por imaginar que estaria com a melhor caçada. Passei a mão no borsal. Peguei a guampa de chumbo. Para meu desespero, notei que estava sem chumbo. Gritar e pedir ajuda para meu irmão e tio, espantaria as aves. Adivinhem o que fiz?

Respondi:
_ Colocou cascalho? Não dá certo porque já fiz isso!!

Carvalho falou:
_ Não foi isso que fiz. A idéia foi surgindo quando eu ainda estava terminando de socar a bucha da pólvora, e foi com a vareta de ferro que resolvi colocar no lugar do chumbo. Deu certo, com cuidado coloquei a espoleta no ouvido da velha pica-pau. Arrumei a vareta dentro do cano, encostei-me numa árvore, firmei a espingarda, mirei com cuidado. A idéia de matar dez urus em um único tiro era persistente.

Nós estávamos escutando o desfecho dessa historia magnífica, e esperando ele contar se havia conseguido atingir os pássaros. Ele perguntou se imaginávamos o que aconteceu quando ele apertou o gatilho.

Eu respondi:
_ Arrebentou o cano, devido a essa idéia maluca!!!
_ Não!! Ao dar o tiro, escutei o “PFUT” no chão. Eu corri. Lá estavam os oito urus enfileirados e cravados na vareta!!
Ficamos olhando e para terminar a cena, Carvalho disse:
_ Olha, se a vareta tivesse uns quinze centímetros a mais, teria matado os dez!! Com certeza seria o tiro perfeito!!
Nós estávamos em gargalhadas, e eu falei:
_ Carvalho vai se catar! Conte outra história porque essa não pegou. Que história mais doida! Realmente você é o campeão de Palmerode!

A roda de amigos se espalhou ainda rindo. Cada um foi para sua seção de trabalho. Carvalho ficou gargalhando da nossa expectativa, porque sabia que ficamos esperando um final diferente, uma realidade. Foi lhe dado um caneco, “Melhor Mentiroso da Loja”. A partir daquele dia, conseguir prender a atenção de todos os funcionários, somente o campeão de Palmerode.


ILARIO IETEKA: Nascido em Rio Negro no Estado do Paraná, se criou na cidade de Ponta Grossa e Tibagi. Com pouco mais de 20 anos veio procurar melhores condições de vida na capital, e com muito esforço e dedicação tem um Currículo de Gerente de vendas há mais de 30 anos, na cidade de Curitiba/PR. Casado há 48 anos com Aglair Cruz Ieteka. A esposa, duas filhas e uma neta, que representam sua maior alegria. Seu hobby é cuidar de seus animais domésticos, pescar e escrever seus pensamentos e idéias para transmitir conhecimento. Publicou os livros:  Vitória de uma Vida Simples. Editora InVerso, Curitiba, Paraná, 2014;  (Des)Encontros, Editora InVerso, Curitiba, PR, 2013; Um filme jamais esquecido e outras crônicas. Editora Instituto Memória, 2011. Tem mais de 50 publicações na Revista Eletrônica Usina de Letras.

   

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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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