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» » Claudio Daniel: Retratos e outros poemas



RETRATO I

esqueletos do nunca
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.

Quadro de Edvard Munch - Domínio Público


RETRATO II

(Francisca Chagas da Silva)

Pedras queimadas
na crueza
do abandono
tuas disformes formas
marcadas
a cutelo.
Pele dispersa
arroxeada
de corpo inânime
esfiapada
entremostrada
em febras
de açougue.
Despejada
na lama,
como detrito:
um aviso
do quebra-ossos
para que ninguém
reclame.
Mundo
desmundo
de mortes
emudecidas
onde olhos
se fecham
para o flagelo
mais cegos
que a noite
mais cegos
que a morte
de indistintas
estrelas —
apenas os corvos
crocitam,
apenas os corvos
— cachorros do céu —
desenham,
com suas vozes
desconexas
a cena do mais
absoluto
horror .

  (Francisca das Chagas Silva, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miranda do Norte, no Maranhão, foi assassinada a mando de fazendeiros da região, com requintes de crueldade: seu corpo foi encontrado nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações. “O simbolismo desta imagem, é do escárnio de como são tratadas as reivindicações e a luta das mulheres para serem vistas, tratadas e respeitadas na lei e na vida como seres humanos”, comentou Isis Tavares Neves, presidenta da CTB-MA.)



RETRATO III

(Acampamento Dom Tomás Balduíno)

Entranhados no terror.
Estirados na terra.
Suas mãos terrosas.
Suas bocas aterradas.
Seus olhos, fundas covas.
Seus olhos, gritos óticos.
Abatidos como feras
pelos furiosos.
Abatidos como párias
pelos paranoicos.
Porque nascem da terra.
Porque vivem da terra.
Porque se multiplicam,
tumultuários, e sua voz
é a voz vermelha da terra .

2016

Poema escrito em homenagem aos trabalhadores rurais sem terra assassinados em abril de 2016 no Acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná.




ANTICANÇÃO

Hora vermelha,
de garras;
hora da gárgula;
hora do grito.

Percorre linhas
das mãos, torso,
axilas, até a medula
espinhal; é gárgula.

Sua face rascante,
de ranhuras;
a língua eritrina;
demente desmundo.

Limosa, ruminante,
esfrega escamas
nos poros da noite
para alucinar-te.

Lambe teu membro,
rugosa melusina,
buceta-escarcéus:
acúmulo de vermes.

Acaso se
entremostraria
no esplendor
de coágulos?

Ferruginosa,
em adensamento
de guinchos.
É gárgula.

Acaso esfiapasse,
seu disfórico vestido
até a final
metempsicose?

Hora vermelha,
de garras:
hora da gárgula;
hora do grito.

Eu sou tua gárgula;
você, meu pesadelo.

Claudio Daniel



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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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