Maria da Glória Colucci: Verdades Forjadas

“VERDADES FORJADAS" NA ERA PÓS-MODERNA MANIPULAM A OPINIÃO PÚBLICA


Maria da Glória Coluccii

1 INTRODUÇÃO

Desde os primeiros pensadores gregos se indaga sobre as possibilidades, a origem, os limites e métodos de alcance da Verdade pela mente humana. Muitas perguntas se fizeram diante da complexidade dos seres e das coisas postas diante dos olhos especulativos e atentos dos primeiros filósofos. Intuíram, então, que deveria existir um princípio único que propiciaria, simultaneamente, a unidade na multiplicidade (arché).

Inquietantes foram as respostas quanto à origem do Cosmos e dos elementos que o constituíram, a exemplo da água ou umidade (Tales de Mileto, 624-546 a.C); do ar ou Pneuma (Anaxímenes, 585-528 a.C); do átomo (Demócrito, 460-370 a.C); ou de um princípio primordial e superior, o número, a saber, a Grande Mônada (Pitágoras, 571-497 a.C).ii


Fotografia de Isabel Furini
Face à diversificação das perguntas e das respostas, chegou-se à negação de que ao Homem fosse dado conhecer a essência do SER, mas apenas sua aparência (relativismo sofista, século V a.C), desviando-se a busca da Verdade muito mais para o criador da pergunta (sofista) e a habilidade retórica de sua elaboração (sofisma), do que para a Verdade em si. O período foi marcado pela prevalência da Oratória, da Retórica, da Gramática e da aparente lógica do diálogo, do que para sua veracidade.iii

Destarte, a pesquisa da Verdade corresponde ao ideal clássico de Lógica, em que ao falso se opõe o verdadeiro. Reciprocamente implicados, verifica-se que no “falso” há elementos do “verdadeiro”, mas não podem permanecer no “verdadeiro” resquícios do “falso”. Extirpar o “falso” do “verdadeiro” é o desafio permanente de filósofos e cientistas.

Trazendo para os dias atuais, verifica-se que a perenidade das perguntas e a provisoriedade das respostas estão mais aflitivas do que nunca. Permanecendo o ceticismo e o relativismo como válvulas de escape aos construtores da “pós-verdade” (post-truth), o sentido do “verdadeiro” deixou de ser o foco das conversações. Os meios de comunicação, mais focados no “furo”, na “primeira mão” da informação, lançam ao ar qualquer notícia, sem se comprometerem com a verdade ou falsidade do seu conteúdo.

Portanto, a “pós-verdade” é uma desconstrução da Verdade, resultante da deliberada manipulação dos fatos reais, para atender a finalidades espúrias e enganadoras que mentes distorcidas e perversas podem produzir.

No campo da atividade política a sua presença se constata com frequência, a exemplo dos envolvidos na corrupção, nos vultuosos desvios de recursos públicos. Apanhados pela Força Tarefa da “Lava Jato”, mentem, manipulam a verdade dos fatos, pretendendo safar-se das garras da Justiça, como é público e notório.iv


2 AS “MÚLTIPLAS” FACES DA FALSIDADE NA ERA PÓS-MODERNA

No entanto, pode-se aceitar a existência de diferentes “respostas” dadas pelas ciências parciais aos fenômenos estudados, posto que abordam sob ângulos distintos o mesmo objeto, a exemplo das ciências humanas. Quando se dedicam ao estudo do Homem como um ser social (Sociologia), político (Ciência Política), econômico (Economia) etc, de suas pesquisas resultam verdades parciais, que, ao final, convergem para o todo, procurando cada um chegar à Verdade – o Ser Humano – em sua totalidade, no exemplo dado.

Por tal motivo, a pesquisa da Verdade não pode ser limitada às “aparências”. Sem que haja um esforço constante pela pesquisa da Verdade, que se encontra para além da “aparência” dos seres e das coisas, não há como se creditar qualquer valor ético às informações, declarações, discursos etc, divulgados pelas redes sociais e pela mídia em geral.

“Verdades forjadas”, construídas e elaboradas com a finalidade de atender a grupos religiosos, econômicos, políticos etc, manipulam a opinião pública, direcionando-a para servir a interesses dominantes. Distorcem os fatos em proveito de partidos políticos, favorecimentos eleitoreiros, investimentos em áreas não-prioritárias, criação de tributos, políticas públicas desnecessárias etc.
Diante da profusão de informações, camufladas sob as mais diferentes ideologias, notícias são “plantadas”, boatos aniquilam a imagem de pessoas, levando-as à destruição. Outras exaltam a personalidade de indivíduos sem nenhum embasamento moral, construindo um “ser” imaginário, portanto falso, sem caráter ou capacitação profissional, forjando a sua real condição moral, política, econômica, intelectual etc.

A força quase ilimitada do poder persuasivo das “verdades manipuladas”, tendenciosas e perversas, está na triste constatação de que a grande massa não se interessa por conhecer a fonte da informação e a sua correlação com os fatos. Exemplos recentes mostram a manipulação até dos “informes oficiais” na eleição para a presidência dos Estados Unidos, em que os candidatos se valeram de interpretações falsas (faking news), de circunstâncias, dados e fatos inexistentes.

No Brasil, de igual modo, as propagandas políticas disseminam informações e boatos, que falseam de tal modo a verdade sobre os fatos e candidatos, que geram descrédito geral.

Ladeando esta impressionante nuvem negra de mentiras, ainda se utilizam de estatísticas, percentuais e índices para darem um “fundo de verdade” às reportagens, entrevistas e relatórios utilizados.
Antevendo este estado de coisas, em 1992, em Oxford, Steve Tesich, utilizou a expressão “pós-verdade”, para se referir às “verdades alternativas”, que fantasiadas pela manipulação dos meios de comunicação, distorcem a verdade dos fatos, embora preservem “rastro”, ainda que tênues, de sua veracidade...v

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao vestir a Verdade com roupagens de mentira (factoides), as redes sociais tentam produzir “novas verdades”, atraindo em pouco tempo um contingente de seguidores, que as abraçam como se correspondessem aos fatos ocorridos.vi

Vários critérios são (e foram) oferecidos ao longo dos tempos para se buscar e chegar à Verdade; a partir de sua ubicação no objeto ou no sujeito; no intelígível ou no sensível; no real ou no ideal; ou mesmo na mente ou na consciência que a apreende ou na realidade que a alicerça. Perguntas são hoje feitas, respostas são (e foram) dadas, mas nem sempre a credibilidade de ambas são (foram) questionadas.

O que se verifica é uma avalanche diária de “versões” de toda ordem, a saber, políticas, econômicas, sociais, religiosas etc, sem que se procure um real compromisso com os fatos, circunstâncias, interesses etc que as geraram.

A opinião pública (a voz anônima das ruas) segue em côro, repetindo, divulgando e ampliando mentiras em “verdades” e verdades em “mentiras”... As deliberadas distorções da Verdade dos fatos, forjadas, ocupam os meios de comunicação, mesmo em horários nobres ou em espaços midiáticos selecionados (pagos), permitindo que em nome da liberdade de expressão declarações falsas se espalhem aos quatro ventos.

Por incrível que pareça, a verdade maquiada, adjetivada, conhecida como “pós-verdade” (post-truth), é a mentira pós-moderna mais festejada.

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1 i Advogada. Mestre em Direito Público pela UFPR. Especialista em Filosofia do Direito pela PUCPR. Professora titular de Teoria do Direito do UNICURITIBA. Professora Emérita do Centro Universitário Curitiba, conforme título conferido pela Instituição em 21/04/2010. Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito e Bioética – Jus Vitae, do UNICURITIBA, desde 2001. Professora adjunta IV, aposentada, da UFPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética – Brasília. Membro do Colegiado do Movimento Nós Podemos Paraná (ONU, ODS). Membro do IAP – Instituto dos Advogados do Paraná. Premiações: Prêmio Augusto Montenegro (OAB, Pará, 1976-1º lugar); Prêmio Ministério da Educação e Cultura, 1977 – 3º lugar); Pergaminho de Ouro do Paraná (Jornal do Estado, 1997, 1º lugar). Troféu Carlos Zemek, 2016: Destaque Poético.



2 PADOVANI, Umberto e Castagnola, Luís. História da filosofia. 12 ed. São Paulo: Melhoramentos,1978, p.99-106.
3 COELHO, Luis Fernando. Introdução histórica à filosofia do direito. Rio de Janeiro: Forense, 1977, p.55-58.
4 www.lavajato.mpf.mp.br
5 Disponível em www.cartacapital.com.br
6 CAMARGO, Wanda. A armadilha da pós-verdade. Curitiba: Jornal Gazeta do Povo; www.gazetadopovo.com..br/opiniao/artigos (Pr)









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