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» » Neyd Montingelli: Amor sem Palavras

                                                                                 
- Mas, os meus livros? Agora os meus livros de romance são uma ameaça ao governo? Papa...
- Minha filha. Este é o nosso país agora. Para ficar aqui temos que cumprir as ordens.
A jovem Heidi chora e vai até o pequeno aposento que serve de quarto. Em um canto, acima da cabeça, está uma prateleira pintada com urucum, com alguns livros.
Separa o livro Die Stadt des Hirns de Otto Flake e coloca na cintura, sob a blusa. Com os outros sete livros no braço vai ao encontro dos soldados que estão na Colônia fazendo buscas nas casas.
- Heidi, não esqueça: fique quieta, não fale nada. Você é surda lembra? Vou contar uma história triste da guerra. Senão você vai presa.
Os soldados esmurram a porta e Heinz abre com a cabeça baixa.
- Estarr aqui todos os livros e papéis que temos.
Um soldado pega tudo e leva até a pequena praça. Enquanto isso um soldado alto e musculoso entra na minúscula casa e diz que tem que revistar.
Heinz mostra as duas peças da casa. Não tem muito o que olhar. Mesa e cadeira, um fogão de lenha, um armário para o mínimo de louças e mantimentos. No quarto uma enorme cama de colchão de palha e as prateleiras bem no alto, com as roupas muito bem empilhadas.
Perto da janela está Heidi. Umas ataduras velhas em volta da cabeça, escondendo o lindo cabelo loiro e um dos olhos azuis.
- E a moça? O que aconteceu?
Heidi continuava a olhar para a janela.
O pai intervém contando a triste história de uma bomba que explodiu perto dela na Alemanha, ficou surda e muito triste, por isso que veio para o Brasil.
- Ah, coitada. Mas ela é tão bonita. Ela me entende?
- Ela falarr, mas depois do acidente...
- Meu nome é Jacinto, soldado Jacinto. Já vi sua casa. Vou marcar na porta que aqui está tudo bem. Como é o nome da moça?

Jacinto chega perto de Heidi e ajoelha-se, olhando-a bem de perto. O pai fica desesperado. E se ele tentasse alguma coisa com a filha? Pela cabeça de Heinz passou muita coisa. Viu-se até estrangulando o moço por ele ter se engraçado com Heidi.
Heidi continuava impassível. Olhava o moço e seu lindo rosto estava sem mexer um só músculo. Mas ela não aguentou. O rapaz era bonito e tinha um olhar meigo. Ela sorri levemente enquanto ele fala coisas ininteligíveis. As palavras não tinham o menor sentido, pois não sabia falar o português, afinal há apenas 15 dias estava no Brasil, fugida que veio da Europa.
Ele estava encantado pela moça e não conseguia sair dali. O pai estava incomodado com a atitude dele.
Despediu-se de Heidi pegando gentilmente em sua mão. A moça devolveu a gentileza com um lindo e iluminado sorriso. Era seu coração sorrindo.
- Estarei logo depois da ponte, no armazém do Oliveira. Vamos ficar por esta região.
Assim que ele sai, o pai vai ter com Heidi.
- Minha filha, não devia sorrir para o soldado. Eles são malvados, estão espancando nossos conterrâneos só porque tem papeis em Alemão em casa.
- Papa, este moço é muito simpático. Gostei dele, mas não entendi nada do que ele falou.
- Nada filha, nada que interesse.


Nos próximos dias a tropa militar passou várias vezes pela colônia. Aterrorizando o povo, pegando alimentos e qualquer objeto que achassem ser alemão. Muitos foram presos só por não saber responder aos soldados.
Uma tarde, Heidi estava sob a sombra de uma árvore lendo o seu livro quando Jacinto aproximou-se. Ela ficou desconcertada. Estava sem a atadura e não sabia qual seria a reação dele caso ela não entendesse o que ele falava.
Continuou com o teatro e fez-se de surda. Escondeu o livro sob a blusa. O rapaz falava muito e ela se limitava a sorrir. Ela não entendia as palavras, mas entendia o sentimento que estava nascendo entre os dois. Fazia gestos e sorria. Para o rapaz era o suficiente: o sorriso.
Ela levanta-se e o livro cai e ela solta um “Oh mein Gott”. O rapaz pega o livro e quando vê que o idioma é o alemão fica preocupado. Entrega o livro para ela e diz que ela tem que escondê-lo. Heidi não entende.
- Moça bonita. Agora sei. Você não é surda e também não fala a nossa língua. Mas você é tão linda!
Durante as próximas semanas, Jacinto e Heidi encontraram-se naquele lugar todos os dias. Ele falava, ela escutava, não entendia e sorria. Algumas palavras ele ensinou outras ele aprendeu.
Naquela tarde fria de junho, estavam sentados sob a árvore sem folhas. O rapaz ouviu seu nome em altos berros. Levantou-se rapidamente a tempo de ver o seu superior alguns metros do local com as mãos na cintura em sinal de reprovação.
Jacinto bate continência e empertiga-se. Heidi fica ao lado.
- Então é aqui que você se esconde? Está com essa rapariga alemoa se divertindo, né? Também quero ...
O superior investe contra a moça. Jacinto fica nervoso e desfere um golpe certeiro na nuca dele. Seu tamanho avantajado faz com que o soco tenha muita força e o homem cai.
Os dois correm. Ele a deixa em casa e vai até o acampamento dos militares. Entra gritando no armazém:
- Acudam, um índio nos atacou lá no campo, perto das árvores. Ele acertou uma paulada na cabeça do tenente.
Os militares se reúnem e correm ao campo. Encontram o tenente estendido na grama.
E nenhum sinal de índio.
- Para onde ele foi?
- Sei lá, só sei que enfiei um murro nele e vim correndo aqui avisar. Vai que tem um monte deles vindo. Precisamos ficar preparados!
O tenente acorda e a história do índio rendeu boas risadas. Ele fica nervoso com o soldado Jacinto, mas percebeu o que estava acontecendo entre ele e a moça. O moço era um bom soldado e que mal havia dele ficar se divertindo com a alemãzinha?
No mês seguinte a tropa foi embora para o quartel em Curitiba. Jacinto pediu permissão ao pai da moça para o namoro. Heinz não tinha o que fazer e consentiu, afinal o soldado era um bom moço.
O amor não tem fronteiras. Nem as palavras sem entendimento são empecilho para que o amor viva e cresça nos corações de jovens apaixonados.

Neyd Montingelli


Neyd Montingelli nasceu em Curitiba é casada e tem 4 filhas.  Formação em Psicologia, Nutrição e Laticínios. Tem 23 livros solo e participa em 90 antologias. Foi premiada em concursos de contos e poesias. Membro da ALB e ALUBRA/SP, Centro de Letras do Paraná, Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires e Lisboa, Embaixada da Poesia e ALMAS/Ba. Recebeu troféu Cecília Meireles, Cora Coralina, Federico Garcia Lorca; Medalha Monteiro Lobato; Medalha Melhores Poetas e Troféu Melhor Cronista, Melhor Contista, entre outros. O livro Cavalos e contos recebeu o prêmio de Melhor Livro de Contos de 2015/16 em Ouro Preto. Recebeu o prêmio Literarte 2017, pelo conjunto da obra.


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Editor da Revista Carlos Zemek

Curador e Artista Plástico.
Membro da Academia de Cultura de Curitiba - ACCUR.

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