Isabel Furini: Entrevista com o editor Naotake Fukushima

 


Entrevista Naotake Fukushima. Professor de Design na UFPR e dono da Nexo Design e Editora Insight.  Nasceu em Tokyo, em 1968. Formou-se na UFPR em Design Gráfico e fez mestrado na temática da sustentabilidade e Doutorado na temática do Design de Serviços. Realizou, entre outros, o Bazar Leite Quente e participa atualmente do Coletivo Era uma Vez, que ajudou a criar em 2019.

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 Naotake, como iniciou a editora? Sozinho? Com apoio de amigos?

Eu gosto muito de literatura e do objeto livro e, com certeza, tive influência da minha família. Meus avós maternos foram educadores, meu pai foi professor universitário e montou uma biblioteca particular com mais de 50 mil livros. Já minha mãe é diretamente ligada à literatura e atuou na área como professora na UEPG.
A Editora Insight foi uma consequência natural da empresa de Nexo Design. No início das atividades, fizemos muitos trabalhos para a Editora da UFPR, dirigida pelo, então, escritor e professor, Roberto Gomes, que também era o diretor da Criar Edições. A Criar Edições foi, sem dúvida, uma das mais importantes editoras do Paraná e aprendi muito com essa parceria. A experiência adquirida foi decisiva para a aproximação com a área editorial. Mais tarde tive outra oportunidade, que foi a coleção Brasil Diferente, coordenada pelo professor e escritor Miguel Sanches, na Imprensa Oficial do Paraná. Além dessas experiências exemplares, atendemos diversos clientes para os quais trabalhamos nas publicações de livros.
Deste modo, pouco a pouco, fui tendo contato com outras partes desse mundo editorial, mas sou um aprendiz, literalmente. Digo isso para as pessoas que vêm editar conosco, pois a ideia é entrarmos na aventurar juntos. Mesmo porque, o mundo em si está em constante mudança e a minha empreitada é movida pelo aprendizado.



Como editor você assinala o caminho aos novos escritores? Pode dar algum exemplo de orientação básica para novos escritores?

Não posso dizer que assinalo o caminho dos escritores. A minha contribuição é bem mais modesta. Como a minha formação é de design, utilizo as técnicas e métodos adaptadas da profissão do designer. Ressaltando que sempre atuo junto com o autor, pois a linha que sigo no design é da cocriação.
Assim, nesta linha de pensamento, o que fazemos é pensar juntos envolvendo o autor, e, quando possível, os leitores também. Então, por exemplo, analiso os talentos e pontos fortes dos autores, as tendências e algumas percepções que coleto das feiras e conversas com o autor.
Tenho também a participação no Coletivo Era uma Vez, o qual ajudei a fundar e estou no grupo gestor, que serve de balizador dos insights.
A nossa atenção está bastante alinhada à literatura infantil que é um dos nossos focos, mas nem todos os autores estão abertos para essa troca de experiências.



Como funcionam as Feiras de Livros? A sua editora participa de Feiras?

As feiras têm funcionado como uma oportunidade de apresentar os nossos livros para o público. Enquanto as pessoas acreditarem no poder da internet, pois a informação pode circular pelo mundo inteiro, mas não podemos esquecer que, na verdade, existem tantas informações que ninguém consegue assimilar.
Em contrapartida, nas feiras que participamos, sempre convidamos os próprios autores para, junto com a editora, estarem presentes na nossa lojinha apresentando os livros e interagindo com os leitores.
Sempre fazemos, do nosso stand, um local de conversa com autores e lançamentos. Acabamos fazendo uma mini feira dentro da feira. Acabamos até chamando autores de outras editoras, que não têm presença em Curitiba para participar.



Este ano vamos promover, além da nossa participação nas feiras virtuais de outras instituições, três feiras virtuais na temática do Design, que é uma outra linha editorial, em parceria com eventos de Design, que acontecerão no sul do país. Ou seja, vem novidade por aí.



Nesta época de pandemia, que tipo de livros as pessoas procuram?

O perfil de busca na nossa editora não se alterou muito. São livros infantis, livros técnicos em Design e alguns livros de poesia. A pandemia aumentou ligeiramente o volume de vendas on-line, mas em compensação às vendas físicas feitas por consignação diminuiu.


Fale de seus autores preferidos.
O meu gosto é eclético e variado. Na literatura, tive época que me deliciava com as narrativas de Franz Kafka e Edgar Allan Poe. Tanto que recentemente fiz um produto em homenagem ao Poe pela minha outra empresa, byNexo.



Mas gosto de autores contemporâneos como Haruki Murakami, que consegue prender a atenção, o que é um ótimo entretenimento. Nas minhas leituras busco incluir periodicamente os autores japoneses, infelizmente hoje em dia não estou conseguindo mais ler no original e estou lendo as traduções, é uma pena. José Saramago, Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Günter Grass também circulam na minha cabeceira.
Tenho apreciado abordagem de livros como a “Intérprete de males”, de Jhumpa Lahiri, com abordagem das interseções de culturas, pois de certa maneira me reconheço nela.
Tento sempre alternar entre livros técnicos e literatura, nos meus livros de cabeceira. No campo dos técnicos gosto muito do Stephen Jay Gould e Oliver Sacks, este último sempre leio como um prêmio para mim, quando termino algum projeto. O livro “Antropólogo em Marte" é o meu preferido. Outro autor que aprecio muito é o Carlos Ginzburg, cujo livro o “Queijo e o Verme” realmente me impressionou.


Naotake, você já publicou livros de autores reconhecidos em nível nacional, como Helena Kolody e Adélia Maria Woellner, mas o mercado editorial é muito competitivo, na sua opinião que tipo de livros tem mais chances de ter sucesso.

Avalio que não existe um tipo específico de livro que tenha sucesso. Hoje, com as redes sociais e com o tipo de interação que está acontecendo, o que determina sucesso está muito mais ligado à postura dos autores (editora e autor) e sua capacidade de se relacionar com o público.
Por isso, avalio que a escolha da editora é muito importante. Uma editora que tenha uma boa comunicação com o público, alinhado com o gênero, é um bom começo. A Editora Insight tem vocação para livros infantis, assim títulos nesta área conseguimos sinergia e acesso ao público de interesse.
O que está em jogo é o envolvimento dos autores na capacidade de dialogar com o público certo. Hoje em dia o autor, além de escrever, precisa se lançar nas redes sociais, mas fazer isso sozinho é muito trabalhoso.



A maioria das pessoas desconhece os diferentes cargos profissionais que colaboram para que um livro impresso cative o leitor. Pode falar um pouco da divisão de trabalho dentro de uma editora? 

Para responder essa pergunta, tem um livro que está no prelo. O livro será ilustrado e vai apresentar o percurso de uma ideia até o livro chegar na mão de uma pessoa. Mas esse livro vai demorar pois estou como ilustrador. Já ministrei cursos sobre isso e realmente nem todo mundo tem noção do que acontece. Têm pessoas que nos contactam falando “o livro está pronto é só imprimir” e não é bem assim. A grosso modo, do texto para virar livro, o processo é mais longo do que as pessoas pensam. A ideia passa pelo projeto editorial que, entre outras coisas, pensar no formato, tipo de papel, estilo de diagramação e estratégias de lançamento, da apresentação, plano de viabilidade… são definições que, dependendo da editora, faz-se junto com o autor, mas, na maioria das vezes, são decisões do âmbito da editora. 

Em seguida, passa pela produção em si, orçamento, copydesk (que é preparar o texto para diagramação), revisão, pesquisa iconográfica, obtenção de autorizações de uso da imagem, projeto gráfico, diagramação, cotejo, provas e impressão.
A ilustração geralmente é um trabalho à parte, que envolve a escolha do ilustrador, briefing, rascunhos junto com o projeto gráfico, digitalização, finalização e ajustes…

Têm textos que precisam, além disso, logo no início, passar por uma análise de estilo, como a que eventualmente fazermos com a própria entrevistadora Isabel Furini

E não acabou, pois têm mais tarefas para que o livro funcione. Depois de impresso precisa-se enviar amostras para formadores de opinião, divulgação, promoção, distribuição e participações em concursos... Lembrando que o livro precisa de ações de promoção. No nosso caso promovemos nas ocasiões de datas comemorativas, feiras e ações diversas conjugadas com incentivo à leitura.


Cite os cinco livros mais vendidos de sua editora.

“Infinita Sinfonia”, de Helena Kolody (Antologia)
“A Coceira de Bartolomeu”, de Jô Bibas
“Passarinho às oito e pouco”, de Jaqueline Conte
“Vade-Mecum de Tipografia”, de Antonio Fontoura
“Uma receita … puxa outra”, de Maria Cristina Fukushima

 

Naotake, vocês tem um sistema para arrecadar o dinheiro que ajude os autores na publicação de seus livros. Como funciona?

Temos uma frente de trabalho com a Nexo Cultural, que elabora projetos para leis de incentivo à cultura e projetos com financiamento coletivo. Mas em ambos casos, apesar de cobrar para montar os projetos, não são oferecidos como serviços convencionais onde o cliente chega e nos contrata. Só fazemos projetos que passam pela nossa curadoria e que acreditamos ser projetos que somarão com a nossa proposta de empresa.
Estamos no momento com o projeto https://www.catarse.me/cecilia-na-terra-do-se
que acabou de receber o selo de “projeto que amamos” da plataforma. Acabamos de chegar na meta inicial e temos alguns projetos em elaboração.


 

Quais são os planos para 2021?

Sempre temos muitas ideias, mas nem sempre podemos realizar: O que fazemos também é colocar as ideias e iniciativas que aparecem ao nosso redor e que fluem bem. As nossas ações são sempre montadas por meio de parcerias e gostamos dessa dinâmica. Nesta linha sempre surgem caminhos interessantes na nossa participação no Coletivo Era Uma Vez.

Estamos envolvidos em três projetos de leis de incentivo este ano e temos como meta lançar uma campanha de financiamento coletivo a cada 2 meses.

Sendo que nem todos são de edição de livro, pois temos também a missão de promover a leitura e estamos com um projeto para livro inclusivo bem interessante


Comentários

  1. Excelente a entrevista com Naotake Fukushima. Esclarecedoras informações sb projeto editorial e a importância dada às parcerias. Parabéns a entrevistadora e entrevistado.

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    1. Eu que fiz o comentário acima . Tendo dificuldd era digital ,vejo que o coloquei no lugar errado.

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