Entrevista com o escritor José Castello

 


Nosso entrevistado é o escritor e jornalista JOSÉ CASTELLO, 1951, carioca radicado em Curitiba, é escritor, crítico literário e jornalista. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É colunista do mensário “Rascunho”, de Curitiba, e do suplemento “Pernambuco”, do Recife. É também colaborador dos suplementos “EU&”, do jornal “Valor Econômico”, e “Aliás”, do jornal “O Estado de S. Paulo”

Desde o ano de 2002, ministra oficinas literárias em todo o país. Desde de 2010, na Estação das Letras, no Rio de Janeiro, coordena o “Estúdio do Conto”,  que já resultou em três antologias de inéditos. Com a psicanalista Maria Hena Lemgruber realiza, no Rio de Janeiro, o projeto “Extremos: círculo de leituras radicais”, criado em parceria com Flávio Stein e que já está em sua oitava edição. No Itaú Cultural, coordenou durante quatro anos o projeto “Rumos: Jornalismo Cultural”, criado por Claudiney Ferreira.

 Castello dá palestras, conferências e seminários em todo o país. É autor, entre outros, de “Ribamar” (Bertrand Brasil, 2010, prêmio Jabuti de “romance do ano” em 2011 e finalista do Prêmio Portugal Telecom no mesmo ano). De “Inventário das sombras” (Record, 1999). De “A literatura na poltrona” (Record, 2004). De “Vinicius de Moraes: o poeta da paixão” (Companhia das Letras, 1994, prêmio Jabuti de “ensaio do ano” em 1995). De “Fantasma” (romance, Record, 2001, “menção honrosa” do Prêmio Casa de las Américas, de Havana, 2002). E de “Dentro de mim ninguém entra” (Berlendis, 2016, assinado em parceria com o artista Bispo do Rosário).



“Quando penso no que escrevo, francamente, não penso em “obra”. Escrevo porque gosto de escrever, porque a vida me pede isso, escrevo por impulsos.”
José Castello – Escritor




1.   Quando começou a escrever? Poderia falar de sua trajetória?

R – Comecei a escrever bem cedo. Antes da adolescência, já tentava escrever poemas – horríveis. Aos 14 anos, escrevi um romance – impublicável. Só guardo uma cópia, num lugar secreto, por motivos sentimentais. No fim da adolescência, comecei a escrever contos. Desconhecia meu caminho. Ainda precisava inventá-lo. Ao longo dos 20 anos em que trabalhei na imprensa, entre 71 e 91, escrevi muitos contos. Tenho mais de 50. Não pretendo publicar nenhum. Só mesmo escrever O Poeta da Paixão me deu coragem. Isso já depois dos 40 anos.

 


2.   Como é o seu processo criativo? Você tem um horário fixo para escrever? Quantas horas escreve por dia?

R _ Não tenho rotina. Não gosto de coisas fixas. Quando escrevo profissionalmente, é claro, sigo prazos que me passam. Mas, se escrevo só para mim, os prazos só me amordaçam. Me calam.

 


3. Alguns escritores falam que “escrever é reescrever”. Qual é a sua opinião?  Quantas vezes você corrige seus textos antes que sejam apresentados a uma editora?

R- Varia muito. “Dentro de mim ninguém entra”, meu relato infanto-juvenil, de 2015, foi reescrito inteiro quatro vezes. Recentemente terminei um romance – que reli, reescrevi, cortei, por cinco vezes. Não há regras. Não sigo regras, nem as minhas. Cada texto pede seu ritmo.

 

4. Como você enxerga o trabalho literário neste momento de pandemia?

R_ Muita gente escrevendo. Pelo pouco que tenho lido, o resultado é um tanto desanimador. Claro, existem coisas boas. Mas escrever preso às circunstâncias é sempre opressivo. E o resultado não costuma ser bom. Pelo pouco que li, insisto, parece, é o que mais uma vez está acontecendo.


5. Como analisa a sua própria obra. Fale de seu estilo e de sua voz literária.

R – Quando penso no que escrevo, francamente, não penso em “obra”. Escrevo porque gosto de escrever, porque a vida me pede isso, escrevo por impulsos. Já escrevi em vários gêneros literários – embora, para ser franco, também não goste da ideia de gênero literário. Acho que minha escrita é fronteiriça. Oscila entre diversos gêneros e sofre muitas influências externas: do jornalismo, da crítica, da crônica, da confissão. Não sei falar do que escrevo, de verdade. Acho que o que eu faço, ou tento fazer, não se encaixa em nada.



6. Sobre os  títulos de seus livros: Você escolhe alguma palavra do livro, procura inspiração em outros textos ou os títulos surgem na sua cabeça?

R -  Cada caso é um caso. Alguns surgem no início, são o ponto de partida. Outros, só aparecem depois que o livro está pronto, e nem tenho muita certeza se escolhi os títulos certos. Não gosto de certezas, de convicções. Minha escrita não é reta, nem coerente, nem segue um plano. Avanço às cegas. Faço porque a vida me pede, porque preciso fazer.

 

 
7 - Castello você também orienta oficinas Literárias. Qual é sua vivência com as oficinas? É útil só para os iniciantes ou para todos os escritores? Tem agendada alguma oficina para os próximos meses?

R – Estou terminando, com a psicanalista Hena Lemgruber, mais um círculo de leitura do “Extremos”. Estamos terminando de ler, com uma turma de umas 25 pessoas, linha a linha, palavra a palavra, o Torto Arado, do Itamar. Devemos fazer um segundo Extremos ainda em 21, mas não é certo, e nem escolhemos o livro. Estou dando também um “Estúdio da Crônica”, na Estação das Letras, da Suzana Vargas. Com o músico Flávio Stein, estou tocando o projeto “Diálogos Urgentes”, em que reunimos dois convidados, ou “conversadores”, para conversar sobre temas que lhes oferecemos. Com o artista visual Rico Lins, fiz, no primeiro semestre, a oficina “Palavra e Imagem”, que deveremos repetir, provavelmente em setembro.

 

8 - Pode citar os nomes de três escritores cujos trabalhos sejam dignos de admiração.

R – Isso é sempre absolutamente pessoal. Em vez de três, quero citar quatro, os quatro que mais marcaram minha vida: Clarice Lispector, Franz Kafka, Dostoievski e Fernando Pessoa. Mas eles marcaram as vidas de milhares, milhões de pessoas em todo o mundo, então isso não chega a ser uma resposta.

 

9) Nesta época, muitas pessoas escrevem poemas e contos. Você pensa que essa explosão literária elevará a poesia e o conto ou os prejudicará?

R _ Quantidade não é o mesmo que qualidade. Não estou certo de que, da grande quantidade, sairá necessariamente a qualidade. Não sei responder a sua pergunta. Tudo isso é imprevisível.
 

 

10 - Fale de seus projetos para o segundo semestre 2021.

R – Já falei um tanto na resposta sobre minhas oficinas. Começo a trabalhar agora, ainda, numa nova edição – aumentada – do meu livro “Inventário das Sombras”, de 1999, um convite do Rodrigo Lacerda, da editora Record. Devo escrever três ou quatro novos retratos. Um, certamente, será do João Gilberto Noll. Estou também com um livro de ensaios breves rascunhados, há alguns anos – a que pretendo começar a me dedicar ainda esse ano. Mas quero sobre ler. Muitos livros, grandes livros, pedem para ser lidos.

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