Nic Cardeal: Dois poemas

 

 

ANATOMIA

Nic Cardeal

Pesquisadores descobriram que os ossos dos camaleões brilham no escuro através da pele.
Os peixes têm ossos finos chamados espinhas.
As borboletas são revestidas por uma espécie de armadura que segura suas asas.
Os ossos dos homens quebram fácil com o passar dos anos.

Camaleões mudam de cor.
Peixes mudam de águas.
Borboletas mudam de flor.
Homens mudam de ideia.

Os camaleões fazem coisas absurdas com os olhos.
Os peixes fazem coisas absurdas com as brânquias.
As borboletas fazem coisas absurdas com as asas.
Os homens fazem coisas absurdas com os homens.

Camaleões são solitários.
Peixes morrem pela boca.
Borboletas são lagartas a caminho do céu.
Pesquisadores não sabem por que os homens demoram tanto para ver com o coração.


MAL DE MIM
Nic Cardeal

Meus sintomas estão definidos:
sofro de eternidades.
Sonhos tenho muitos:
de todos os tipos!
Padeço de confiança.
Acredito em qualquer distância.
Tudo é sempre perto.
Não tenho tempo para longínquos.
Gosto de transbordamentos.
Nada em mim parece deserto.
Minhas águas moram nos rios.
Alguns deles deságuam em mares,
mesmo sozinhos ou aos pares.
Costumo ser muito normal.
A loucura me avizinha
a cada respiro da alma minha.
Tenho em mim algumas ilhas
com cais de aportar navios.
O tempo eu guardo em conserva
(sempre é bom ter uma reserva).
Tudo em mim é infinito.
Não imagino limites ou fronteiras.
Não concebo somente metades,
só me comportam os medos inteiros.
Não posso entender as margens,
quero as somas e os avessos.
Não me fale de labirintos.
Se as portas estão trancadas,
minhas janelas – feito asas –
ficarão sempre abertas.
Tudo o que tenho é esperança.

Meu único diagnóstico:
mal de mim do começo ao fim.




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