Ilario Iéteka: Natal no interior (Conto)

 

 

 NATAL NO INTERIOR


    O mês de dezembro me traz velhas recordações. Nossa família consistia nos filhos e em meus pais, morávamos em Mato Grosso há sessenta anos. Naquela época, o estado ainda não era dividido. A minha família era muito pobre, não tinha o prazer de festejar a data do nascimento de Jesus Cristo, embora sendo muito religiosa. 


    Natal soava uma coisa distante de nós, a gente ouvia falar que os vizinhos faziam grandes almoços para seus familiares no dia vinte e cinco daquele mês. Nós, éramos as crianças e pensávamos que somente os ricos tinham este poder. Presentes? Nem pensar!


    Para este dia comemorativo, minha mãe, com muito sacrifício, fazia umas bolachas, para nós era uma verdadeira delicia, também fazia cerveja caseira, que era tradição de família.


    Minha mãe, para o nosso almoço, sacrificava um frango. “Huummm! Este sim era o nosso churrasco!!” Era um almoço muito especial, mas acreditem, por mais simples que possa parecer, era muito caro para os coitados. 


    Um vizinho foi falar com o papai para nos levar em sua casa na véspera dos festejos natalinos para conhecer o tal Papai Noel e fazia grandes elogios ao homem de roupas vermelhas:
    - Crianças, vocês conhecem o Papai Noel? Ele vai trazer um grande saco da cor vermelha, cheia de presentes para todas as crianças! 


    Nós ficamos eufóricos para ver o tal velhinho de cabelos e barbas brancas e longas. Meus pais coitados fizeram um grande sacrifício para que a gente pudesse ver o famoso e bom velhinho. Chegou o dia mais esperado por nós, fomos recebidos pelo vizinho com muita alegria e ficamos numa sala com outras crianças do lugar. 


    Nós estávamos extasiados esperando a hora das surpresas. Já era incrível visitar as pessoas com maior poder aquisitivo, também dormir mais tarde, porque no interior, todos dormem com as galinhas. Em torno das vinte e duas horas chegou o homem mais famoso do mundo para nós.  Ele começou distribuir os brinquedos de um em um, para os meninos e meninas, chamando as crianças pelos nomes. Parecia que o tal velhinho nos conhecia e sabia o que tínhamos aprontado durante a vida toda. A gente estava numa euforia sem tamanho aguardando o nosso nome ser chamado e podermos receber o brinquedo que foi feito especialmente pelo bom velhinho. Todos os nomes foram chamados, o saco aveludado, cor de carmim estava quase vazio. 


    Chegou a nossa vez!! Corremos em direção ao Papai Noel. Como ouvimos falar em sua santidade, sabíamos que um estalar de dedos, a mágica aconteceria e nossos presentes surgiriam, o saco novamente iria se encher e seria a alegria em nossos corações. 


    Para a nossa surpresa e decepção o bendito Papai Noel, chacoalhou o saco, pegou um saquinho pequeno que estava perto dele, de dentro retirou um pacotinho de balas amarrado com uma pequena fitinha e nos entregou. O que teria acontecido? Por que Papai Noel não fez o milagre da multiplicação dos presentes? Juro, não nos importava ganhar algo repetido. Então percebemos que nossos presentes foram balinhas, assim fomos embora daquela reunião tristes e desgostosos. 

 


    A indagação corria solta em nossas mentes, éramos crianças! Por que o resto da criançada ganharam bonecas, carrinhos, caminhões pequenos de madeiras (por sinal muito bonito) e outros presentes bem diferentes dos nossos?


    Eu ouvi o vizinho, quando foi convidar meus pais, explicando que Natal é  a época do ano em que nossos corações estão mais receptivos e harmoniosos e nossas esperanças são renovadas. Uma data para poder juntar toda a família e celebrar a vida de Nosso Senhor que nasceu naquela gruta. Lembro-me também que foi nos explicado que havia um senhor santo, chamado São Nicolau, mais conhecido como Papai Noel, que sua missão era surgir como mágica na noite da véspera de Natal com um saco de presentes para dar às crianças que se comportaram bem durante o ano.


     No dia seguinte, eu levantei cedo e fui perguntar para a mamãe disse:
    - Mamãe, Papai Noel não gosta da gente? Ele não viu como a gente ajudou papai nesse sertão? Não viu a senhora e painho chorando por não termos trabalho? A culpa é da seca!


    Minha mãe coitada vendo a nossa tristeza arranjou uma desculpa esfarrapada dizendo:
    - Filha, aqui em casa não temos correio. Não temos como escrever as cartinhas contando nossos pedidos e histórias. Não fica triste, Papai Noel não conhecia vocês, foi por isto que só deu um pacotinho de balas.


    Com certeza, a coitada saiu da sala onde estávamos sem saber o que dizer. Mamãe foi para o quarto chorar de tristeza, por não ter tido condições de comprar um pequeno presente para nos alegrar naquela bendita data. Só ela e o papai sabiam o sacrifício que foi feito para comprarem aquelas benditas balas e doces.
    Hoje, eu sou uma das crianças daquele sertão que ganhou as balinhas, moro no sul deste país e estou perto dos setenta anos. Eu sei que nosso presente é muito mais valioso do qualquer presente que as crianças abastadas receberam. Jesus Cristo, por causa D’ele que comemoramos o Natal, a interpretação da sua chegada em forma humana no planeta para nos ensinar ser mansos e santos de coração. Nessa historia, também há Palavra de Deus, muito parecido com a oferta da viúva. A pobre mulher, sem o marido, representa a pessoa profundamente necessitada e dependente, como minha família na infância. Aquilo que ela ofertou era tudo o que ela tinha, todo o seu sustento, toda a sua vida. Ela não ofertou sobras, mas tudo que tinha! Ganhou o reino dos céus.


    Eu tenho filhos e netos, graças a Deus não passaram por estes apertos, sou grata e comemoro o verdadeiro sentido do Natal. O natal realmente nos traz esperança e paz, reflexão da caridade, da fraternidade, da gratidão a vida de Jesus Cristo recebida e sacrificada por nós, para podermos viver em tempos de graça.


    Por que eu estou contando essa historia? Não é para pedir compaixão na época natalina,  mas para mostrar que o presente mais bonito, daquele Natal há sessenta anos foi o nosso pacotinho, porque o esforço e dedicação de meus pais, mesmo com toda a dificuldade da época tornou-se um dia inesquecível, cada balinha tinha gosto de AMOR! Percebam, era tudo o que meus pais tinham para nos presentear, mas onde contabilizava todo o nosso sustento, toda a nossa vida? As balas e doces não eram sobras, era “tudo”, simplesmente “tudo”, era puramente AMOR. 

Ilario Iéteka é escritor.

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