Os jurados elogiaram os poemas e escolheram os três primeiros lugares e duas Menções Honrosas.
1º Lugar: O tempo - João Felipe Rebuski Estrada – Curitiba- PR -
2º Lugar: O tempo é ente soberano - Maria Augusta de Oliveira Costa (Tita Costa) - Portugal
3º Lugar: 21 dias - Alexander da Silva Lima – SP
Menção Honrosa: Na toca do coelho - André Luiz Dias Pinto - GO
Menção Honrosa: O encantamento que o soberano tempo permite - Gisela Maria Bester – Curitiba-PR
O 1º Lugar, João Felipe Rebuski Estrada, receberá Medalha em 11 de novembro/26, 18h30, no evento da AVIPAF, que acontecerá no Instituto Cervantes de Curitiba.
Os outros contemplados receberão o Certificado pelo e-mail.
Isabel Furini - Organizadora.
1º Lugar
O tempo
João Felipe Rebuski Estrada
Vendo que Prometeu nos deu a chama,
Cronos cobra em parcelas esse bem.
Aquele que hoje os dons todos reclama,
Amanhã há de não ser mais ninguém.
Assim, a humanidade segue a trama
De ascender ao céu, mas cair também.
Os corpos dos gigantes se embalsama,
E a luz que um dia viram, já não veem.
O início dá a beleza e alma pura
Às crianças; e aos povos, na cultura,
Dá a claridade em gesto parecido.
Se agora o que restou é apenas treva,
É porque quando a chama o Cronos leva,
Substitui-lhe a razão, sem dar sentido.
2º Lugar
O Tempo é Ente Soberano
Tita Costa (Maria Augusta de Oliveira Costa)
Uma criança corre
num corredor antigo,
Ainda corre.
Alguém chama por ela.
Ainda chama.
Uma porta fecha-se.
Ainda ouvimos.
O tempo não apaga.
Muda a distância.
Põe névoa
onde havia rosto.
Põe silêncio
onde havia voz.
E um dia
sentimos uma mão
que já não existe.
Dentro da nossa.
Assim.
Sem aviso.
O tempo é ente soberano.
Não porque mande.
Mas porque permanece.
Quando nós partimos
ele continua.
Quando chegámos
já estava.
Talvez tenha visto
a primeira pedra
aprender o peso.
A primeira água
procurar o mar.
Talvez tenha esperado
milhões de anos
por uma flor.
Sem pressa.
Só nós temos pressa.
Contamos minutos.
Contamos dias.
Contamos aniversários.
Como se contar
fosse impedir
a passagem.
Mas o tempo
não conhece números.
Conhece transformação.
A pele muda.
A casa muda.
A luz atravessa
outra janela.
O amor também muda.
E às vezes
é por mudar
que permanece.
Há pessoas
que ficaram connosco
menos de uma hora.
Nunca partiram.
Outras ficaram anos.
Quase não chegaram.
Estranho reino
o do tempo.
Não tem fronteiras.
Não tem bandeira.
Não tem trono.
E contudo
tudo lhe pertence.
A árvore.
A pedra.
O corpo.
A memória.
Até o esquecimento
lhe pertence.
Talvez morrer
seja apenas
deixar de contar.
Deixar cair o relógio.
Abrir a mão.
E descobrir
que aquilo a que chamávamos tempo
era outra coisa.
Um rio, talvez.
Ou uma respiração.
Ou apenas
a distância necessária
entre duas eternidades.
Não sei.
O tempo não responde.
Passa.
Ou nós passamos.
E por um instante
tão breve
que não cabe em nenhum relógio,
olhamo-nos.
Reconhecemo-nos.
Estamos vivos.
Depois,
o tempo
fecha devagar
a porta.
*
3º Lugar
21 dias
Alexander da Silva Lima
No sertão,
o tempo não se mede pelo relógio.
As flores do juazeiro e do mandacaru
prometem um inverno chuvoso.
As formigas vermelhas
apressam a mudança dos formigueiros.
O guacho procura o galho mais alto da umburana
para construir seu ninho.
A natureza avisa.
O sertanejo aprende a ler.
Primeiro dia.
Ninguém teve medo.
A terra ainda guardava
a lembrança da última chuva.
Nas cem covas,
o feijão-de-vara subia pelas estacas
como se soubesse o caminho do céu.
Seu Oliveira caminhava entre elas.
O verde feria a secura da caatinga
e enchia de vida
os olhos de quem passava.
Quinto dia.
Seu Oliveira começou
a olhar mais para cima.
As asas-brancas começaram a partir.
O canto estridente das cigarras
preenchia os vales do sertão.
Décimo dia.
Dona Marta começou a medir a água.
Não precisava de régua.
Conhecia pelo peso da vasilha
o tamanho da espera.
O baião de dois usava
a mesma água
e a mesma panela.
Resistência também se cozinha.
Décimo quinto dia.
A terra abriu
a primeira ferida.
As cem covas de feijão-de-vara
se curvaram em oração
diante do sol escaldante.
Vigésimo dia.
Ninguém mais falava de chuva.
As últimas e teimosas asas-brancas
bateram asas para longe.
As promessas se perderam pelo caminho.
Os santos, quebrados de viagem,
já não faziam milagres.
Vigésimo primeiro dia.
O céu continuava azul.
Bonito.
Cruelmente bonito.
As cem covas de feijão
usaram a própria terra
como sepultura.
Seu Oliveira voltou para casa.
São José esperava no altar.
Marrom como a terra.
Verde como aquilo
que já não existia lá fora.
Com um único golpe,
o cajado improvisado
partiu o santo ao meio.
Metade no altar.
Metade no chão.
Ninguém sabia dizer
se naquele instante
um homem havia quebrado um santo
ou se a seca
havia quebrado um homem.
Nos dias seguintes,
não houve trégua
entre o homem e o santo.
Talvez o castigo tivesse chegado.
Maria de Jesus,
a última das Marias,
adoeceu.
Dona Marta molhava o pano.
Torcia.
Colocava sobre a testa da filha.
Molhava.
Torcia.
Esperava.
Lá fora,
o verde tinha ido
e não voltava.
Dentro da casa,
cada vez havia menos água.
Seu Oliveira ajoelhava-se
diante de São José.
Um pedido de desculpas?
Um desabafo?
Uma promessa?
Ninguém sabia.
As palavras não saíam da boca.
Vinham do silêncio profundo
de uma alma cansada.
Vinte e um dias.
A terra esperava água.
Um pai esperava a filha.
Um santo quebrado
esperava a fé,
único alimento
que ainda restava
naquela casa.
No vigésimo segundo dia,
a febre de Maria foi embora.
E o primeiro pingo de vida
caiu sobre a cabeça seca de boi
que guardava a casa.
Depois da porteira,
o mal não passava.
Ou será
que já estava lá?
Durante uma semana inteira,
a chuva mansa beijou a terra.
O tempo do sertão
não é medido.
Não é exato.
É ritmo de reza
nas mãos das benzedeiras.
Compasso de espera.
Mistério sagrado.
Com a chuva,
a poeira foi se apagando.
Dona Marta começou a retirar da casa
as lembranças ruins daqueles dias.
Limpou o chão.
As paredes.
O altar.
Por último,
pegou São José.
O santo remendado
foi sendo limpo devagar.
O manto.
As mãos.
Os pés.
Mas não o rosto.
Ali permaneceu
a poeira vermelha do sertão.
Talvez Dona Marta soubesse
o que nenhum relógio poderia ensinar:
homens,
crenças
e santos
são regidos
pelo mesmo tempo.
*
MENÇÃO HONROSA
a toca do coelho
André Luiz Dias Pinto
Sentado em frente ao espelho
com o relógio anunciando a madrugada
mergulho nas memórias
quando levava flores vermelhas pro jazigo
e mesmo privado de fazer teu epitáfio
recriava palavras em vapores
elegias de castrato
flash!
...a vida era uma bosta
cercada de pessoas-mais-ou-menos
aí
ele chegou e iluminou meus tetos
ventou minhas louças
descobri a virada de 180 graus
e entonteci
inebriado pela conjunção sideral
seu sorriso... ai, o seu sorriso
definições: carismático
magnético
meu (ó, possessão!)
flash!
não importa mais saber de testamentos
o pó da Sininho mofou, verde como Elphaba
sou sonhos morrendo sobre sonhos
cadê a minha fantasia?
onde foi que deixei os tais guizos?
e quem ousará retirar de meu sangue todo esse delírio?
aos poucos, bem lentamente
afundo-me em buscas
arqueólogo nas ruínas do outrora glorioso império
entretanto, o fim chegou
mesmo
né, baby?
vivo meu próprio apocalipse
um armagedom feito por encomenda
eu não sabia como era possível existir
em uma mesma cicatriz
o amor e a dor
um dia cheguei a pensar que me manteria inteiro
ainda que pulsasse o vácuo
pois é
um dia as flores foram mais que odores
hoje
nesta esfera de solidão
as pedras só pesam
e são tantas saudades
dos lábios me engolindo em beijos
da cama sem dramas
e sim sim sim
desse teu sorriso encantador
aqui refletido na minha face empalhada
cara
sem você, tô em cacos nos sapatos
sou uma , à espera do texto seguinte
agarrando-me à possibilidade de que
ao final
Thelma & Louise tenham saltado de paraquedas.
*
ENCANTAMENTO QUE O SOBERANO TEMPO PERMITE
Gisela Maria Bester
Dia a dia, ano a ano
Para alguns o tempo inicia
Para outros o tempo se encerra.
Sim, o tempo é ente soberano.
Como cupim que corrói a madeira
E desmancha estruturas antes certeiras
Também a contagem das horas, sem dó
Nos devolverá àquilo do que viemos, puro pó.
Mas quando uma criança nasce, nasce o tempo.
Quando plantamos uma árvore, planta-se o tempo.
Assim como a flor que se abre traz a beleza do efêmero
E toda semente que germina carrega a memória ancestral.
E na travessia, uma poeta de nome Maria
Adornada com muitas glórias
Amestra o tempo em seu quintal de histórias
Onde, uma a uma, escolhe e colhe palavras
Para cerzir mais um poema imortal.
Com mistério e talento vai a barda
Reencantando o mundo com versos madrigais.
Não faz contas de segundos, minutos, horas ou dias
Na sua messe de erguer uma casa de sonhos
Repleta de poemários, livros, canções e preces.
Tão profunda e bela sua emocionada alma aveludada
Ela nunca se esquece, que em cada grão de humanidade
O tempo vive e permanece!

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